Caozagem mulamba

joão-sem-braçoSe há uma coisa que não falta são motivos para se criticar o Estadual e seu regulamento. Que a FERJ produziu um campeonato com times e etapas demais e planejamento de menos (o que dizer de uma Taça Guanabara decidida na Região Norte e de um campeonato que só teve a confirmação de onde será sua final a menos de um mês da sua realização?), todo mundo sabe.

Mas também há certas coisas das quais não se pode reclamar. Vejamos a parte do regulamento do Estadual que trata da semifinal da competição:
confirmaçãoNão é preciso ser um advogado para entender o parágrafo primeiro desse item, é? Se “Dentre as associações classificadas para a fase final terá direito a escolha o mando de campo da primeira ou da segunda partida, a associação de melhor classificação no grupo C” (grupo esse formado pelas equipes que disputaram a Taça Guanabara), está claríssimo que quem escolhe o local da semifinal é o time melhor classificado em cada uma das semifinais, que, vale lembrar, serão em jogo único.

Ou seja, para deixar ainda mais claro, Vasco e Florminense têm o mando de campo e o direito de escolher onde querem jogar a semifinal.

Mas aparentemente, o Sr. Eduardo Bandeira de Mello, presidente mulambo e pessoa da mais alta instrução, não conseguiu entender esse simples parágrafo do regulamento. Por isso, soltou a pérola:

Não sabemos ainda onde vamos jogar. O regulamento é omisso e eu imagino que seja num lugar de comum acordo entre as duas partes e não acho difícil de conseguir esse comum acordo (…) Se é de comum acordo, acho difícil que seja proposto um estádio que não seja neutro. A gente vai achar um lugar legal para jogar”

De tudo isso, a única coisa correta é que a mulambada não sabe onde jogará. Nem teria como saber, já que a prerrogativa de escolher o local da partida é do Vasco. Agora, dizer que o regulamento é “omisso” sobre esse assunto ou esperar que a decisão seja de “comum acordo” é se fazer de desentendido. Não cabe à FERJ marcar nada e não é preciso comum acordo nenhum. Repetindo, o regulamento nos dá o direito de escolher onde queremos jogar.

Se não for escolhida a Colina – e, pra reforçar, sim, poderia ser São Januário, caso isso nos seja preferível – será um estádio que nos agrade, independente dos desejos e vontades urubulinas. Provavelmente se pensará em um estádio maior, até pelo potencial financeiro de uma semifinal entre Vasco e Framengo. Mas se o Sr. Bandeira de Mello não gosta, por exemplo, da Arena da Amazônia, desculpem a franqueza, isso não é problema do Vasco.

A urubulândia poderia dar pitaco onde jogaria a semifinal se tivesse feito algo simples: bastaria ter vencido a Taça Guanabara. Como chegou na quarta colocação, lamento, terá que jogar onde o melhor classificado quiser. Mandar indiretas e dar uma de joão sem braço para influenciar a escolha do local da partida é, além de inútil, patético.

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A importância da Guanabara

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Entre os grandes do Rio, o Vasco é o time que há mais tempo está sem conquistar a Taça Guanabara. Ainda que não possa ser considerado um título (até porque não é mesmo), não fica bonito para o primeiro clube a levantar o troféu da competição passar 13 anos sem repetir tal gesto. Pior ainda se lembrarmos que, entre 2003 – quando fomos campeões pela última vez – e 2015 alguns clubes de menor tradição como o Volta Redonda (2005) e o Fluminense (2012) conseguiram lograr tal feito.

Mas nem é pelo longo jejum ou pela possibilidade de termos mais uma entre as infindáveis taças que ornamentarão nossa sala de troféus que falo sobre o simpático campeonato placebo. Essas vantagens até se tornam menores diante de outras que a conquista da Guanabara esse ano nos proporcionaria. Como o importante mesmo é alcançar o bicampeonato estadual, precisamos nos concentrar no que há de prático em terminarmos na primeira colocação nessa fase da competição.

A primeira delas é a vantagem de mando de campo na semifinal. Em um ano no qual os maiores estádios do Rio estão fechados para a prática do esporte bretão – mas não para shows de bandas conterrâneas do futebol – essa é uma prerrogativa que se torna importante. Se terminarmos na terceira ou na quarta colocação na Taça Guanabara, não poderemos escolher onde jogaremos a semifinal e isso significa a possibilidade de acabarmos em Volta Redonda, Espirito Santo, Brasília ou até mesmo em São Paulo. Se mantivermos a liderança que temos hoje até a oitava rodada desse turno, teremos São Januário como palco da semifinal.

A segunda vantagem, e na minha opinião a mais importante, é que sendo campeões da Guanabara teremos o benefício de jogar por um empate na semifinal, o que pode fazer uma diferença enorme numa disputa em jogo único. E se considerarmos que estaremos no nosso caldeirão, nosso caminho para a final do campeonato será bem facilitado, mesmo que tenhamos um clássico na semi.

Os mais atentos devem perceber que, já que a vantagem do empate não existirá nas finais e como o segundo colocado da Taça Guanabara também escolherá onde joga na semifinal, não somos obrigados a vencer o turno. Bom, realmente poderemos ter as mesmas vantagens se não levarmos a Guanabara. Mas duvido que exista sequer um vascaíno que não prefira acabar com mais de uma década de tabu e ainda por cima se livrar de um vice.

Gato escaldado

gatoRevejam o lance do pênalti sofrido pelo Madson, na vitória de ontem do Vasco sobre o Madureira, na estreia do Estadual 2016.

Qualquer que seja o ângulo observado, é um lance claro. O zagueiro do Madura dá um carrinho lateral no jogador do Vasco e o derruba. Não é motivo pra polêmicas, certo? E até que não foi mesmo. Tirando um ou outro perfil humorístico do Twitter, não vi gente falando que o Vasco tenha sido favorecido no lance.

Exceto o jornalista Fábio Seixas, que disse o seguinte:

O cara tem todo o direito de ir contra as imagens e achar que não foi pênalti. Parece loucura (ou algum problema sério de visão), mas tudo bem. Agora, dizer que o Madureira foi “operado“? Num momento em que o Vasco já ganhava a partida e o Madureira não oferecia qualquer risco de empatar o jogo? Convenhamos….

Foi a única pessoa que vi dar esse tipo de opinião (até o Arnaldo César Coelho falou que houve a penalidade!), então nem dá pra falar que começaram a criar polêmica pra cima do Vasco. Mas é aquilo: esse lance foi muito claro. Se não tivesse sido, certamente outras pessoas começariam a insinuar favorecimentos.

Minha preocupação nem é essa. Por conta da ligação do Dotô com a FERJ, é óbvio que assim que pintar o menor motivo, falarão tudo o que falaram no Estadual do ano passado. O que me preocupa é imaginar se a atenção da imprensa esportiva carioca sobre qualquer lance polêmico que venha a favorecer o Vasco não fará os juízes pensarem duas vezes antes de apitar algum lance a nosso favor. Se isso acontecer, quem passará a ser prejudicado somos nós, já que, na dúvida, apitarão – ou deixarão de apitar – os lances que nos favoreçam.

E isso ainda poderá provocar o seguinte: sabendo que a arbitragem fará vista grossa, os zagueiros adversários podem se sentir mais seguros em arriscar carrinhos e contatos diretos com nossos jogadores dentro da área. E nessa, os caras poderão fazer dois, três penalidades antes que o árbitro marque a primeira.

Paranoia minha? Pode ser. Mas gato escaldado tem medo até de água fria. Na minha opinião, as polêmicas e mimimis sobre possíveis favorecimentos ao Vasco não começaram AINDA. Mas que uma hora ou outra começarão, eu não tenho dúvidas.

Cada um por si e (quase) todos contra o clube

editorial01No Dia da Independência eu bem que poderia me livrar um pouco dos problemas e não escrever sobre o Vasco (que, infelizmente, tem sido uma fonte constante de problemas para sua torcida). Mas não dá. Sempre aparece uma novidade para ser comentada. E se deixamos de comentá-la por muito tempo, surge outra situação para se discutir e perdemos o fio da meada.

Em respeito ao feriado de todos e principalmente ao meu, tentarei ser breve. A história dessa vez começou com o episódio do “pedala Rodrigo”: após a vexatória goleada por 6 a 0 imposta pelo Internacional, integrantes da Força Jovem foram protestar no hotel em que o elenco se concentra e, no meio da balbúrdia, um sujeito estapeou a cabeçona do zagueiro (o que talvez explique o pênalti enlouquecido cometido pelo mesmo no jogo contra o Galo). A diretoria lançou uma nota oficial repudiando o ato, um acerto tanto no conteúdo quanto no tom empregado.

Só que parte da organizada ficou um tanto quanto chateada com termos como “facção” e as ameaças de medidas legais contra a torcida e também soltou uma nota oficial. E nessa nota, chutou o balde sem a menor cerimônia:

“Não tememos nenhuma ação judicial movida pelo Presidente e acreditamos que o mesmo que deve nos temer, não pela violência, mas sim caso nos queira colocar a disposição da justiça para esclarecermos todos os seus acordos, promessas e atitudes com sócios e integrantes organizados desde o período eleitoral do C. R. Vasco da Gama.”

Não é a primeira vez que aparece alguém falando dos possíveis conchavos feitos pela atual diretoria para vencer o pleito. Teve a história do zapzap, o sujeito cobrando o Euriquinho em São Januário e agora essa. E já que todo mundo emite notas oficiais, a Cruzada Vascaína também lançou a sua, cobrando um posicionamento da diretoria com relação às acusações da Força Jovem. Até agora, nada. Nem mesmo uma nova nota oficial.

A briga entre a FJV e a diretoria não é nova e se acirrou após Eurico ter dito – novamente em nota oficial – não reconhecer qualquer relação entre a torcida e o clube. Esse novo episódio só reforça o seguinte: caso realmente tenha havido “acordos, promessas e atitudes” de qualquer um dos lados para que determinado candidato vencesse as eleições, ambos pensaram apenas em vantagens para si próprios e não no Vasco. Se a chapa vencedora não conseguiria a eleição sem acordos com uma organizada, estava desrespeitando a vontade de todos os outros torcedores que não faziam parte dela; e no caso da torcida é ainda pior, já que além de igualmente afetar o resultado do pleito, ainda escondeu esses acordos de todos, só se lembrando deles agora que brigou com o presidente.

E enquanto todo mundo olha apenas o próprio lado, o Vasco afunda. Aparentemente com muito pouca gente pensando apenas no futuro do clube.

A verdade dói

Truth-Hurts-485x728A matéria do Globoesporte.com com o pré-jogo entre Vasco e Palmeiras trouxe um parágrafo que me incomodou um pouco por parecer exagerado. O trecho citado dizia o seguinte:

De estádio novo em folha, média de público mais alta da competição, programa de sócios tinindo e diretoria jovem, as afinidades históricas do Palmeiras com o Vasco hoje parecem rascunho bem distante da realidade carioca – com capacidade limitada e públicos baixíssimos em São Januário, com a volta do setentão Eurico Miranda à presidência e mais de 100 mil sócios a menos que o Verdão.

Meu incômodo pode ter sido coisa de torcedor, que conhece a história do seu clube e nunca aceita tranquilamente críticas, ou mera empolgação por conta das três vitórias em sequência. Seja qual tenha sido a razão, era claro que o fato de eu não ter gostado do que li aconteceu por motivos emocionais, algo completamente desprovido de racionalidade.

Mas aí veio o jogo. E a razão voltou na hora. A razão do meu incômodo foi um só: a verdade dói. Evocar nossa história e passado são argumentos válidos apenas para o torcedor vascaíno. Na prática, a distância gigantesca entre Vasco e Palmeiras hoje é algo tão visível que apenas os completamente cegos podem refutá-la.

Dói ver que o Verdão passou pelos mesmo problemas que nós há bem pouco tempo. Como eles, ficamos muito tempo sem títulos, com credibilidade em baixa e com um conturbado cenário político. A diferença é que o segundo descenso palmeirense serviu de lição. Já o nosso, não.

O Palmeiras caiu em 2012, subiu – como deveria, sendo campeão da Série B – em 2013, passou por naturais problemas no seu retorno à elite e hoje tem o cenário descrito no início da coluna. Um sinal da competência do time paulista: em 2013, o goleiro titular do Vasco preferiu ir para o Parque Antártica para disputar a segundona a continuar na Colina. E Prass acabou acertando. Trocou os atrasos salariais por um projeto que começa a dar frutos.

Já o Vasco caiu em 2013 e fez uma Série B vergonhosa no ano seguinte. Poderia mudar tudo em 2015, se modernizando, buscando o profissionalismo e aceitando que não há mais espaço para amadorismo agora que o futebol se tornou um negócio. Mas preferimos – e falo isso por todos, já que cada torcedor que poderia se associar a tempo de participar da eleição e não o fez também tem sua parcela de responsabilidade – olhar para o passado e voltar para 2001.

E enquanto os que olharam para o futuro se destacam, nós voltamos a cometer os mesmos erros e repetir uma história que já não deu certo. O resultado está aí. E se continuarmos nessa mesma toada, poderemos ter um fim de ano tão terrível que nenhuma vitória sobre os rivais do Estado ou mesmo o título carioca chegará perto de compensar.

A partida de ontem foi de um simbolismo atroz para a torcida vascaína. Em campo, a equipe palmeirense mostrou na prática como uma gestão competente pode trazer os resultados que todos esperam. E fora do gramado, enquanto quem critica com razão a incompetência é expulso das cadeiras sociais, nosso presidente abandonou sua cadeira e o jogo antes de ver a goleada se concretizar. Talvez porque a verdade doa ainda mais para os responsáveis pelos fracassos.