Razão x Emoção

corazon-vs-menteO ato de torcer independe do ato de ser racional. Em muitos momentos são ações diametralmente opostas, o que aliás torna a torcida algo ainda mais bonito. Torcer quando todas as chances estão a nosso favor é fácil. Quando está tudo contra, torcer é uma das raras oportunidades que temos de exercitar a prática da esperança.

Para quem torce para o Vasco escapar do terceiro rebaixamento em oito anos, a derrota para o Fluminense só significa um contratempo que não muda o único pensamento possível: ainda dá.

Ainda dá porque faltam 5 rodadas. Ainda dá porque a distância para escapar do Z4 é de cinco pontos. Ainda dá porque nossos concorrentes são fracos. Ainda dá porque Palmeiras, Santos e Corinthians não estão mais preocupados com a competição. Ainda dá porque o Vasco está em fase melhor que os outros times que estão na luta contra o rebaixamento. Ainda dá porque é o Vasco.

Ainda dá porque nossa cruz de malta fica no lado esquerdo do peito, sobre o coração. Mas tirando a armadura vascaína e usando o cérebro um pouquinho e apelando para a razão, as coisas são um pouco diferentes.

Faltam cinco rodadas, as mesmas cinco que estamos sem vencer. A distância é de cinco pontos para sairmos do Z4 deveria ser menor ou até poderia ser uma distância de três pontos fora da zona da degola caso fossemos mais competentes. Palmeiras, Santos e Corinthians não terem interesse no Brasileiro não é garantia alguma de uma vitória vascaína. O Vasco estar em melhor fase é algo pra lá de relativo, e para isso basta vermos que somos o de pior rendimento nos confrontos diretos contra os times que lutam contra o rebaixamento.

E por último: o Vasco ser o que é e ter a sua história não impediu que caíssemos outras duas vezes antes.

Cada vascaíno tem suas razões para acreditar ou não no milagre. Não se pode julgar quem escolhe o coração e nem quem opta pelo cérebro para acompanhar esse fim de Brasileiro. Os primeiros estão cumprindo seu dever como torcedores; os últimos têm ao seu lado a razão para lhes referendar o ponto de vista.

Quem está certo? Os dois (ou nenhum). Como julgar o sentimento de um torcedor? Só posso falar sobre a minha escolha. E para mim, por tudo isso ou apesar de tudo, ainda dá.

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O erro do otimista (ou nivelando por baixo )

otimismoSport e Goiás lideram o Brasileirão. Dos sempre apontados como favoritos, os gambás são os melhores colocados, mas não conseguiram ganhar nem do Fluzim. Galo, São Paulo e Santos perderam para times menores. O Palmeiras, cheio de bons jogadores, está com dois pontos apenas. O Inter está na parte debaixo da tabela e o Cruzeiro na zona de rebaixamento (fazendo companhia aos mulambos, que volta e meia é apontado como um dos postulantes ao título, basta que “cheguem alguns reforços”).

Ah, sendo assim, a campanha do Vasco não é ruim! Estamos jogando na média dos outros times, estamos invictos e o time está “encaixado”. Só falta acertar o gol para deslancharmos. Não vamos ter problemas nesse Brasileiro!

Esses são os argumentos dos vascaínos otimistas. E como não existe lógica no futebol, suas previsões podem sim se concretizar. Mas os argumentos utilizados são falaciosos e não refletem a realidade, nem de um campeonato com 38 rodadas, nem do próprio Vasco.

O campeonato estar no começo é um dos pontos que nos favorece? Relativamente, já que esse começo não é uma vantagem apenas para o Vasco. Um monte de times que estão na parte de baixo da tabela também pode se recuperar e a olhos vistos têm mais recursos que nós para isso. Inter e Cruzeiro, terminada a Libertadores, certamente renderão mais. Os gambás e o São Paulo estão com problemas extracampo (o primeiro, com salários em atraso, o segundo, sem um treinador), e ainda assim bem próximos à ponta da tabela. O Galo teve duas partidas fora e na que perdeu, foi superior o tempo todo. Santos e Palmeiras têm bons elencos e ainda têm lenha pra queimar na competição.

Já o Vasco, por mais que nos esforcemos para ver que não jogamos mal apesar dos três empates, é isso aí. O time até pode ter o tal do encaixe, mas é o mesmo encaixe que apresentamos no Estadual. Tanto que o time joga da mesma forma, com as mesmas – poucas – qualidades e os mesmos – em maior quantidade – defeitos. Estamos invictos, não jogamos mal e merecíamos vencer as três partidas que tivemos? Podemos concordar com isso, mas a impressão que temos é que jogamos no nosso limite. Mais que isso, com esse elenco que temos, será difícil.

Não falta ao Vasco acertar o gol para termos um desempenho melhor no Brasileiro. Isso nos falta desde o Estadual. Fomos campeões, mas nosso ataque foi um problema ao longo de todo Carioca. A falta de um meio de campo que articule jogadas e de laterais que consigam concluir jogadas de linha de fundo foi o que causou nossa dependência das bolas paradas. Em um campeonato do nível do Carioca, conseguimos o título. No Brasileiro, mesmo que “nivelado por baixo” como argumentam os otimistas, isso não vai ser o bastante. Prova disso? Três rodadas, três empates e o único gol que fizemos foi….num lance de bola parada.

Quando o torcedor acredita que o Vasco se sairá bem no Brasileirão porque os outros times são ruins, quem está nivelando por baixo é o próprio torcedor. É querer acreditar que os outros times não jogarão mais do que estão jogando agora e que apenas nós vamos ter uma melhora significativa. Crer nisso é um perigo, que se ficar apenas com a torcida nem é tão ruim. O problema é se a diretoria também engolir essa historia e não se movimentar para trazer reforços. Temos um time esforçado? Temos, mas isso não é o bastante para livrar ninguém de complicações no Brasileiro.

O engano do otimista é achar que o Vasco não vai ter problemas porque os grandes clubes estão mal. O que deve servir de exemplo não é o Cruzeiro no Z4 ou o Galo perdendo para o Furacão, e sim o Sport, Goiás, Atlético-PR, Ponte, Chapecoense e Avaí, que estão acumulando pontos que podem ser importantíssimos no fim do Brasileiro. Os pontos que perdemos, principalmente nos empates na Colina, se não farão falta para nos garantir na Série A, poderiam fazer a diferença em objetivos mais nobres, como uma vaga na Libertadores.

Isso, claro, se Doriva conseguir fazer seu time jogar mais com os jogadores que tem ou se a diretoria se virar para reforçar as posições mais carentes da equipe.