Receita para o fracasso

burnt_dinner1-icouldntboyleaneggdotfilesdotworpressdotcomAo término da 20ª rodada do Brasileirão o Vasco segue na lanterna e agora, depois de mais uma derrota, a seis pontos do penúltimo colocado. Passada metade da competição, a situação é uma só: a única esperança que resta à torcida é se agarrar às chances matemáticas, que ainda existem.

Culpa de um planejamento que não deu certo ou da ausência de qualquer planejamento? Pela forma como foi conduzido o futebol vascaíno ao longo do ano, a impressão que temos é que a diretoria apenas se adapta aos acontecimentos, não tendo feito qualquer previsão de um cenário negativo. Isso seria uma prova da falta de planejamento.

Mas não é bem assim. Planejamento houve. Uma entrevista feita em janeiro desse ano com o filho do presidente explica o raciocínio por trás da gestão do futebol no clube. Pinçando alguns trechos do que disse o Euriquinho, compreende-se facilmente porque o Vasco está onde está agora.

Como foi montado esse elenco atual?   

(…) Estamos contratando sem dinheiro nenhum. Estão vindo jogadores só pelo salário. O cara (empresário) querendo apostar em jogador, acreditando em atletas que não estão em evidência no mercado, empresários que estão abrindo mão de comissionamento. O cara fala “vamos fazer porque a gente quer voltar a ser parceiro do clube” ou vai fazer porque tem interesse em clube grande, empresário que é vascaíno, tem nosso relacionamento de anos.  

Já em Janeiro estava definido que o time seria montado com apostas e jogadores sem evidência no mercado. E o grosso das contratações, para não dizer todas, foram feitas dessa forma.

(Sobre a quantidade de jogadores contratados) Mas é um número muito alto de contratações de qualquer jeito?

Quando você vai apostar em coisas baratas, você tem que ter opção: não deu certo, toca a vida. Você não pode ficar só com ela (essa opção). (…) Para montar time vencedor hoje no Vasco só tem essa solução. Apostar nuns caras, aí chega no meio do ano, aposta em mais alguns, aí chega no final do ano, aposta em mais garotos da base. Aí você vai montar um time que ainda não ganhe muito dinheiro, mas que na frente pode ganhar muito dinheiro. E que vai jogar de igual para igual com time que ganha muito dinheiro, que foi o que Cruzeiro fez com Ricardo Goulart, com Everton Ribeiro. Os caras foram para lá saindo times de pequena expressão, rodaram lá e virara fortunas. O caso do Lucas, do Macaé: o jogador entrou bem no time. Qual diferença do Lucas para um monte que tem aí que ganha muito mais? Diferença do Lucas para o Cáceres (volante do Flamengo)? O Cáceres ganha 10 vezes o que ele ganha. Ele é 10 vezes melhor que o Lucas? Isso que o torcedor tem que analisar.

Ou seja, a única solução encontrada pela diretoria foram as apostas. A questão é que se o clube prioriza os empresários que “querem voltar a ser parceiros do clube”, como o próprio Euriquinho falou na pergunta anterior, restringimos os reforços aos que esses empresários têm para oferecer. Em janeiro, ele ainda poderia usar o exemplo do Ricardo Goulart e do Everton Ribeiro; hoje, quando NENHUMA das apostas deu certo, chega a ser risível a comparação entre o caso dos dois com o do Lucas.

As contratações também receberam críticas por que seriam de amigos do presidente, porque têm a ver com apoio na campanha para a presidência.

Normal de falarem, de criticarem. Qual jogador da Brasport tem no Vasco? Nenhum. O Erick Luis é do Carlos Leite. O Victor Bolt é do Leandro e do Felipe, dois empresários novos. O Bolt pertence ao Madureira, não tem nada a ver com Brasport. Erick Daltro é o único que tinha algum vínculo com o Olaria. Falaram que tinha quatro, cinco… Eles vieram de graça e o Vasco vai pagar só o salário. Se o jogador não for bem, o empresário tira o jogador daqui. Quer risco melhor que esse?

Atentem para essa parte: “Se o jogador não for bem, o empresário tira o jogador daqui. Quer risco melhor que esse?” Aparentemente, critérios qualitativos não tiveram a menor importância. O jogador foi mal em todos os times por onde passou? Não tem problema, vai que no Vasco (onde a pressão e o nível de exigência serão infinitamente maiores) ele dá certo? Se não der, gastamos apenas algumas dezenas de milhares de Reais e está tudo bem.

Por que não deixar de contratar dez apostas ou jogadores questionáveis para contratar um de retorno mais certeiro?

Esses 10 não pagam um de R$ 100 mil, 150 mil. Fora Marcinho, que ganha salário alto, Julio dos Santos, que ganha salário razoável. Só esses dois. O restante são todos jogadores baratos. Todos eles juntos não dá um desse (mais caro). “Ah, era melhor um”. Mas eu preciso dos outros também. Senão não tenho grupo, como é que eu faço? os caras deixaram aqui 14 jogadores.

Mais uma prova de que a qualidade não é o critério mais importante ao fazer contratações (o que ficaria óbvio mais tarde, ao sabermos que Marcinho e Julio dos Santos foram os que vieram recebendo salários altos). Se os 10 jogadores baratos não pagam um jogador de R$ 150 mil tanto faz que o de R$150,00 traga 10 vezes mais resultados em campo que todos os baratos juntos.

Por que o Vasco não renovou com quase ninguém e só ficou o Douglas Silva?

Primeiro que eles ganhavam muito e tinham rendimento que não valia a pena. Hoje, eu vou pagar R$ 100 e tantos mil para um jogador podendo pagar R$ 30 mil, R$ 40 mil, R$ 20 mil?  (…) Torcedor tem que analisar pelo que estou gastando, não pelo que o jogador representa. (…) Pago R$ 100 mil e pouco para todo mundo, R$ 200 mil para um ou para outro, para não ficar uma distância. Agora, jogadores de R$ 200 mil e pouco e outros de R$ 10 mil, de R$ 15 mil – tem jogador no Vasco que ganha R$ 10 mil! -, não dá. Não posso trazer jogador de R$ 300 mil. É um disparate muito grande. Escolhemos um ou dois caras de mais nome, de mais peso, aí vem tem outros garotos, mesclando, assim consigo pagar e quem sabe vai conseguir disputar. Pelos dois jogos que fizemos: é melhor gastar R$ 10 milhões e fazer o que o São Paulo fez (em Manaus) ou é melhor gastar R$ 2 milhões e fazer o que a gente fez?

Euriquinho reafirma que o primeiro critério era o baixo custo e não a qualidade das contratações. Ainda que tenha lógica e haja benefícios em não haver alguns poucos jogadores ganhando muito mais que a maioria, não priorizar o potencial técnico das contratações é um erro grave.

Para justificar a opção por jogadores baratos, ele compara o desempenho do Vasco com o do São Paulo no torneio de Manaus. Aos olhos do benemérito, o fato de termos feito um jogo parelho com o tricolor era uma prova de que o planejamento estava no caminho certo. Se ele levasse em consideração que perdemos os dois jogos do torneio, talvez entendesse que fazer jogos parelhos com os outros não garantem vitórias. Nem salvam ninguém do rebaixamento.

O Vasco procura um atacante e dispensou Edmilson. Não era mais fácil ficar com ele?

Edmilson era um jogador caro. (…) Jogador que entrou pouco no segundo semestre, um cara com certa idade e tal. E queremos investir no Thalles, que está na seleção. Se a gente contrata muito, não revela ninguém. Não pode sufocar teu time com uma porrada de jogador de R$ 100 mil e pouco e o que joga ganha R$ 20 mil. Não adianta, não vamos fazer, não tem como.

Só para exemplificar as contradições no planejamento desse ano: o artilheiro do clube no ano anterior – e que estava disposto a aceitar uma redução salarial para renovar – foi dispensado por ser caro, ter entrado pouco no segundo semestre, ter uma certa idade e porque seria banco. Aí, a diretoria traz Marcinho (ganhando o maior salário do elenco, apenas um ano mais novo, que teve problemas de contusão e não rendeu nada em campo) e Dagoberto (mesma idade, problemas com contusão, rendendo muito abaixo do esperado e ganhando R$ 120 mil/mês). E nenhum dos três treinadores no ano optou por ter Thalles como titular.

PS: em 2015 Edmilson marcou 14 gols. Marcinho, Dagoberto e Thalles, juntos, marcaram 8 gols.

Nessa sua posição agora, como filho do presidente que participa ativamente do futebol, está preparado para receber críticas?

Torcedor quer ganhar o jogo. Se ganhar, é bonito, se perder, é feio. (…) Não se faz uma história vencedora de um dia para o outro. Se faz apostando em caras novos, baratos. Aí se monta um time que ninguém acredita e daqui a seis meses, um ano, um ano e meio quem sabe você tem time forte, que vai adequando jogadores da base, vai dando oportunidade. (…) vamos botar o jogador mediano para correr 10 vezes mais que o bom. Vamos ver se eles vão ganhar.

Um dos sinais de que a conquista do Estadual teve seu lado negativo foi essa: o título deu à diretoria a impressão equivocadíssima de que teríamos elenco para a disputa do Brasileiro. Nem tínhamos elenco, nem nosso elenco passou a correr 10 vezes mais que os elencos melhores.

Como podemos ver diante das declarações do filho do Eurico, o problema do Vasco não foi a falta de planejamento. Foi a escolha por um planejamento arcaico, que não funciona nos moldes atuais do futebol. Tudo o que parece estapafúrdio para grande parte da torcida (contratações em baciada, foco em jogadores baratos, teto salarial por jogador, reforços para tapar buracos, etc) foi antecipado nessa entrevista. A receita para o fracasso já tinha sido passada, nós apenas não prestamos atenção.

Depois da pior administração da história do clube, natural que a atual diretoria renegasse qualquer coisa que a anterior tivesse feito. Mas partir da premissa de que “gestão profissional não funciona no Vasco” porque não deu certo na gestão Dinamite foi um erro. O gerenciamento do futebol por diretores amadores já não tinha funcionado na primeira presidência do Dotô e sete anos depois as chances de funcionar seriam ainda menores. O resultado não poderia ser diferente.

Os culpados

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No meu último post no Blog da Fuzarca, comentei que enumerar culpados pela situação do Vasco é inútil e tem pouca seventia além de aliviar um pouco nossa frustração. Mesmo que todos conheçam os responsáveis pela quase destruição do clube, apontar o dedo para cada um deles ao menos nos dá a satisfação de deixar claro que sabemos o que eles fizeram nos 15 verões passados.

Mas, como eu disse antes, na prática isso não adianta nada e nem fará com que o Vasco volte ao lugar de onde nunca deveria ter saído.

Ainda assim, ora bolas, eu QUERO apontar culpados! Se agora não há mais nada de efetivo que eu possa fazer, desconto minha raiva fazendo isso.

Antônio Soares Calçada, o último presidente decente do Vasco, tem sua parcela de culpa. Se ao unificar politicamente o clube ele foi o responsável por um dos períodos mais vencedores do Vasco, por outro lado preparou o terrno para os anos terríveis que viriam pela frente: sua índole pacífica e discreta acabou sendo o pontapé inicial para a criação do Euriquismo. Como o Dotô dava pitaco em tudo, Calçada sempre foi visto como uma rainha da Inglaterra, alguém com o cargo mais importante, mas que na prática não apitava em nada. Isso foi um prato cheio para alguém como o Eurico, que com sua prepotência incorporou o personagem e o vendeu para os mais crédulos. Além disso, Calçada também permitiu que Eurico moldasse ao longo dos anos o Conselho de Beneméritos como queria, uma ferramenta de poder que permitiu manter sua influência na política vascaína mesmo quando foi tirado do poder.

Eurico Miranda já tinha sua parcela de culpa nos problemas que temos até hoje antes mesmo de assumir pela primeira vez a presidência. Por pura birra, utilizou um dos símbolos do clube para provocar a principal parceira comercial do Vasco fazendo uma vingança pessoal. Quem sofreu as consequências de tal ato foi sua própria gestão, atingindo diretamente o clube. Sua incapacidade em resolver a pinimba que criou com a Globo prejudicou sua gestão e ainda serviu como desculpa para todos os erros cometidos entre 2001 e 2008.

Roberto Dinamite foi provavelmente a maior decepção que a torcida vascaína já teve. A esperança que sua eleição trouxe, depois de mais de sete anos em que o Vasco acumulou muito mais fracassos que sucessos, sofreu um duro golpe poucos meses após sua posse, ao não conseguir evitar o primeiro rebaixamento do clube. Mesmo quando o clube parecia ter retomado o rumo do crescimento, entre 2011 e 2012, a incompetência do Dinamite e do seu grupo conseguiu arruinar esse momento sem sequer aproveitar a popularidade que lhe rendeu uma reeleição para criar um plano de sócios decente ou fazer uma mais que necessária mudança no Estatuto.

Não só isso, Dinamite conseguiu fazer um segundo mandato ainda pior que o primeiro. A falta de pulso, a indecisão e as medidas equivocadas e a repetição de erros da gestão Eurico que esperávamos não ver novamente pavimentaram o caminho para os problemas tão graves que redundaram em um segundo rebaixamento (em apenas cinco anos). E não podemos deixar de citar o que talvez seja o legado mais nefasto do Dinamite: conseguir fazer uma administração tão pior que a anterior que conseguiu ressuscitar politicamente o Eurico.

Mas para o Dotô não bastou que a incompetência dinamítica fizesse com que os eleitores do clube esquecessem como foi a primeira gestão Eurico. Para garantir sua volta ao poder, ainda foi necessário que alguém – não se sabe quem ou que grupo – ainda bancassem mensalidades em troca de votos. E com o lamentável episódio do mensalão vascaíno, o grupo político de Eurico Miranda voltou ao poder.

E voltou pregando a volta do respeito. Mas o que vimos mesmo foi a volta das velhas práticas que já não haviam funcionado no começo dos anos 2000. A falta de transparência, as bravatas e uma gestão para o futebol pra lá de discutível. Apesar das Brasports, das contratações inexplicáveis e do absurdo teto salarial por jogador, o Vasco conseguiu conquistar o Estadual, o que serviu para referendar todos os erros cometidos até o momento. Mas bastou entramos em um campeonato com adversários minimamente competitivos para o castelo de cartas ir ao chão. A tal “responsabilidade financeira” foi esquecida, inchamos o elenco com um monte de veteranos que ganham mais que oferecem em campo, trocamos de um treinador por outro pior e amargamos o pior primeiro turno de Brasileiro da história do Vasco, que praticamente nos relegará à disputa de uma terceira Série B em oito anos.

Todos os últimos presidentes tiveram seu papel na derrocada pela qual o Gigante da Colina atravessa hoje. Mas a torcida não pode deixar de fazer seu mea culpa. Assim como elencos e treinadores fracos só chegam ao clube porque são contratados, gestões incompetentes só chegam ao poder porque o voto dos sócios os colocam lá. Sendo assim, todo torcedor que tem condições de se associar, virar eleitor e participar do pleito tem sua parcela de responsabilidade nesse que é o pior momento da história do Vasco da Gama. E como já ficou evidente que nossos dirigentes não conseguem aprender com seus erros, cabe à torcida fazê-lo: ao invés de apenas ficarmos lamentando e pensarmos em abandonar o clube, nosso dever é fazer justamente o contrário. Devemos, dentro das possibilidades de cada um, participar mais ativamente da vida da instituição. Somente dessa forma poderemos fazer diferença no futuro do Vasco. E se não agirmos assim, carregaremos ao menos a culpa por nossa omissão.

Maldito absurdo

image“Nós estamos diminuindo muito esse passivo. Quando eu falei que nós pagamos mais de 115 milhões de dívidas, isso é fruto de acordos ou bloqueios mesmo. Às vezes, não é só pagamento, é bloqueio de receita que acaba retendo os nossos recursos. A gente vem fazendo isso. É o que eu disse quando assumi lá a vice presidência. Eu tinha dito que isso não era uma coisa de curto prazo. A gente vai precisar de muito tempo para recuperar o clube”

Nelson Rocha, VP de Finanças da gestão Dinamite, falando sobre a situação financeira do Vasco (março de 2011)

“Um desastre. A estrutura de custos em relação estava completamente desmontada, desestruturada. Nós pegamos um clube completamente refém da dívida. Algumas pessoas da oposição costumam dizer que não existe herança maldita, mas existe herança maldita sim e ela vai existir por muitos anos ainda. Tem um monte de gente hoje falando bobagem, mas quem vive o dia a dia sabe das dificuldades que o clube atravessou e atravessará dentro de mais alguns anos por conta da irresponsabilidade e da falta de fundamentação, dos desmandos, da falta de controle”.

Nelson Rocha, sobre o mesmo assunto, em janeiro de 2012.

“A diretoria antiga deixou inúmeras dívidas, níveis incalculáveis, não tem como mensurar. A cada dia que passa surge uma confissão de dívida absurda. Temos tentado resolver de todas as formas fazendo acordos, regularizando as situações… É difícil, vai demorar, mas o Vasco não vai fechar as portas. Se a antiga diretoria não tinha crédito, a atual tem. Tanto que estamos conseguindo alguns avanços. Não uso o termo herança maldita. Mas é uma herança absurda que deixaram para o clube.”

Paulo Reis, atual VP Jurídico do clube, ainda sobre as finanças do clube, no dia 31 de julho de 2015.

Colocando as declarações de membros das duas últimas diretorias em comparação fica mais fácil notar como ambas têm na ponta da língua a quem culpar por todos os problemas do Vasco: a gestão anterior.

A gestão Dinamite foi um retumbante fracasso? A culpa é da irresponsabilidade da gestão Eurico. A nova gestão Eurico está comprometida? Culpa da irresponsabilidade da gestão Dinamite. E assim, com cada nova diretoria empurrando suas incompetências para a anterior, o Vasco vai afundando.

As dívidas enormes vieram do passado, e para pagá-las, será preciso muito tempo. E com isso, se quem está no comando não conseguir deixar o Vasco novamente no lugar que lhe é de direito no cenário esportivo nacional, que se responsabilize quem estava no comando antes. Como se mudar o nome da herança fosse resolver alguma coisa.

As mudanças que a torcida espera a cada nova gestão ficam apenas nas promessas de campanha. Na prática, o que vemos há 15 anos são confissões de dívidas suspeitas, equívocos na gestão do futebol, incapacidade de gerar investimentos no clube ou, pior ainda, quem era situação e agora é oposição cobrando o Vasco na justiça ou a própria diretoria perdoando dívidas milionárias dos seus membros. Já resolver os problemas do clube, como sempre dizem, “vai levar um bom tempo“.

As declarações praticamente idênticas do Rocha e do Reis deixam claro que os gestores vascaínos sempre estão mais preocupados em apontar culpados pelos problemas que em encontrar soluções para esses mesmos problemas. Todos deviam ao menos imaginar o tamanho do abacaxi que teriam pela frente, e não será repetindo discursos e as práticas danosas – que há anos são a regra no clube – que eles serão descascados. E enquanto esse tipo de atitude também for uma regra para os nossos dirigentes, os malditos absurdos continuarão a acontecer no Vasco.

Alguns lados de uma mesma questão

MosaicoDomingo que vem cairá por terra mais uma das profecias euriquianas. Depois do time que brigaria pelo título, do time que não teria complicações no Brasileiro, da vinda do Léo Moura e de que o Ronaldinho Gaúcho não jogaria em outro clube além do Vasco no país, a afirmação do presidente vascaíno de que “Pode ser CBF, Fifa, federação de Marte, o quiser que seja… O Vasco não joga no Maracanã se a posição de sua torcida não for a histórica. É simples. O Vasco não joga no Maracanã”, também redundará em palavras jogadas ao vento.

Não entrando no mérito de que o dirigente, tão conhecido por suas bravatas, não tem dado uma dentro e que sua atitude com relação à situação do clássico contra o Fluzim esteja sendo deplorável, é preciso deixar claro um ponto: nessa, a culpa não é do Eurico.

O problema do lado da torcida do Vasco na Arena Maracanã tem vários responsáveis e o menos culpado entre todos é o Dotô.  O governo do Estado, o consórcio que administra o estádio, os tricoletes e a gestão anterior deveriam ter resolvido essa questão à época.

O governo do Estado foi o responsável pelo edital da licitação para a concessão do estádio. Pensasse o governo em algo além do aspecto financeiro, poderia ter levado em consideração as implicações históricas que envolvem um estádio como o Maracanã. Sendo o governador do Rio à época um torcedor do clube, é imperdoável não ter sido incluído algum dispositivo que impedisse que um direito conquistado pelo Vasco fosse ignorado.

Caberia igualmente a uma empresa feita unicamente para gerir por mais de três décadas ter a sensibilidade histórica que o Estado não teve. Se seus responsáveis não sabiam – o que é improvável – que o Vasco CONQUISTOU o direito de escolher de qual lado do estádio ficaria sua torcida, ficaram sabendo no momento em que o Laranjal incluiu a posse do lado direito nas negociações. Aceitar o pedido do Fluminense foi, no mínimo, falta de tato com a segunda maior torcida do Estado. Não imaginar que isso criaria problemas no futuro foi simples burrice. Isso sem falar no óbvio: o consórcio não precisaria aceitar esse ponto se não quisesse. Fosse negada essa solicitação, o Fluzim teria que fechar um contrato com o consórcio de qualquer maneira. Afinal de contas, sem a Arena, onde jogariam os tricoletes?

Sobre o Fluzim, desnecessário dizer o quanto são responsáveis. O fato de terem que mudar sua torcida de lado a cada jogo contra o Vasco é algo que nunca lhes desceu pela garganta (até porque era mais um motivo para serem sacaneados). Era evidente que, ao negociar com o consórcio, tentariam tomar na canetada o direito conquistado dentro de campo pelo Vasco. Vale lembrar que eles são responsáveis diretos, mas estavam vendo o seu lado. Eles não devem qualquer obrigação ao Vasco. Quem poderia impedi-los é que não fez o seu papel.

E, além do Estado e do Consórcio, quem poderia ter feito algo? A gestão Dinamite. E o que ela fez? Nada. O próprio presidente tricolete disse que levou muito tempo para fechar a negociação com o Consórcio. Será que nesse tempo todo a diretoria anterior não soube dos termos propostos pelo Fluzim? Se soube, não era o caso de conversar com o Consórcio e tentar resolver a situação? Será que considerou que a questão não merecia ser levada às últimas consequências (leia-se via jurídica)? Aparentemente, para o Dinamite o que se podia fazer era recomendar que a torcida do Vasco não fosse ao estádio apoiar o time em campo (coisa que o atual presidente fez igual).

Talvez a solução para o caso não fosse tão fácil quanto escrever essa coluna. Mas não fazer nada, como aparentemente agiram os envolvidos à época, com certeza também exigiu muito esforço. E por mais que seja fácil bater no Eurico (principalmente por prometer o que não tem a menor condição de cumprir, como no caso) deve-se responsabilizar quem poderia ter feito alguma coisa e simplesmente lavou as mãos.

***

Agora, essa ameaça de ir à justiça por um clássico com torcida única é mais uma clara tentativa do Eurico de tentar sair bem nessa história. É risível ver alguém que está há tanto tempo envolvido com o futebol carioca classificar o clássico de domingo que vem como de altíssimo risco. Há quantas décadas vemos brigas entre torcidas em todos os clássicos no Rio? E quantas vezes o Eurico defendeu jogos com uma torcida única? Será que o jogo contra o Fluzim que tivemos no Engenhão esse ano não teria os mesmos riscos?

Caso a CBF decida definitivamente por um jogo apenas com os tricoletes no estádio, o Dotô não precisará manter o papelão de imitar o Dinamite e convocar um boicote da torcida do Vasco. Uma coisa é um torcedor comum não desejar ver uma partida sentado no lado errado do estádio (eu mesmo me comprometi a não assistir a qualquer jogo contra o Fluzim na Arena nos próximos 33 anos). Outra completamente diferente e vergonhosa é ver um presidente de clube pedindo que seus próprios torcedores não vão apoiar o time.

***

Pra encerrar o assunto, cabem algumas umas palavrinhas sobre o tal Sr. Marcos Kac, da Promotoria de Justiça do Juizado do Torcedor.

É um direito do Sr. Promotor expressar suas opiniões pessoais sobre qualquer assunto. O que não o impede também de falar besteiras sem tamanho.  Como é o caso da declaração “todos sabemos que São Januário não tem estrutura ou capacidade para receber um clássico dessa magnitude”.

Que “todos” são esses? Se o próprio Major Silvio Luiz, Comandante do Grupamento Especial de Policiamento em Estádios afirma que São Januário SEMPRE FOI liberado para clássicos (com 10% de ingressos para visitantes), por que deveríamos levar em consideração o que um Sr. Promotor Engravatado qualquer fala sobre o assunto?

Ainda é cedo?

marcinho_barraNa falta de notícias animadoras a tratar do time, vou contar aos parcos leitores que tiverem algum interesse o que eu achei do jogo contra o Barra Mansa.

Igual a todos os outros jogos que vi. Continuar lendo