Resposta no campo

(…)Numa partida que mais parecia um amistoso, tamanha a apatia do adversário (…)

O jogo começou sonolento e burocrático e assim seguiu até a metade do primeiro tempo. Os donos da casa não tinham criatividade para armar jogadas e acabaram deixando espaços para o Vasco chegar.

O Globo

O lance do segundo gol foi um retrato da atuação do Palmeiras, um time bem mais desorganizado e aparentemente bem menos interessado que o adversário.

Lance

Mediano, o Palmeiras não conseguia transformar em lances de perigo a sua posse de bola superior e o jogo acabou travado no meio campo na segunda metade da segunda etapa.

O Dia

Apático, o Palmeiras perdeu para o Vasco diante de sua torcida por 2 a 0 e praticamente deu adeus à possibilidade de conquistar uma vaga na Copa Libertadores do próximo ano pelo G-4 do Campeonato Brasileiro.

Estadão

Não foram todos os jornais, nem todos os jornalistas, mas a maioria fez questão de assinalar que o Palmeiras não jogou nada na derrota para o Vasco ontem. Ainda que elogiassem o Gigante, fizerem questão de deixar claro que o Verdão facilitou as coisas pro nosso lado.

O que pouco vi foi gente falando qual foi a participação do Vasco na má atuação palmeirense. Os caras não jogaram ou não conseguiram jogar? Será que o placar foi mesmo construído sobre as falhas dos anfitriões e não pelos nossos méritos?

Outro exemplo claro: um monte de gente comemorou a vitória do Galo porque não seria bonito o Corinthians ser campeão sem estar em campo. E com isso, já falam que a partida contra os Gambás na Colina será “o jogo do título”. Ou seja, pra todo mundo, a possibilidade do Vasco vencer o jogo é ZERO. Mesmo que o Corinthians tenha tido uma dificuldade tremenda para passar pelo Coxa dentro do Itaquerão na última rodada.

Nunca deixo de apontar as limitações do Vasco quando as enxergo, mas apontar apenas para elas é a regra da imprensa jornalística em geral. Quando perdemos, o time é fraco. Quando ganhamos, nossos adversários jogaram mal. Pode ser paranoia, mas que esse tipo de coisa enche o saco, enche. O descrédito é grande, em boa parte justificado, mas as vezes exageram.

Mas deixa estar. A resposta a todos esses tem que ser dada na bola.

Razão x Emoção

corazon-vs-menteO ato de torcer independe do ato de ser racional. Em muitos momentos são ações diametralmente opostas, o que aliás torna a torcida algo ainda mais bonito. Torcer quando todas as chances estão a nosso favor é fácil. Quando está tudo contra, torcer é uma das raras oportunidades que temos de exercitar a prática da esperança.

Para quem torce para o Vasco escapar do terceiro rebaixamento em oito anos, a derrota para o Fluminense só significa um contratempo que não muda o único pensamento possível: ainda dá.

Ainda dá porque faltam 5 rodadas. Ainda dá porque a distância para escapar do Z4 é de cinco pontos. Ainda dá porque nossos concorrentes são fracos. Ainda dá porque Palmeiras, Santos e Corinthians não estão mais preocupados com a competição. Ainda dá porque o Vasco está em fase melhor que os outros times que estão na luta contra o rebaixamento. Ainda dá porque é o Vasco.

Ainda dá porque nossa cruz de malta fica no lado esquerdo do peito, sobre o coração. Mas tirando a armadura vascaína e usando o cérebro um pouquinho e apelando para a razão, as coisas são um pouco diferentes.

Faltam cinco rodadas, as mesmas cinco que estamos sem vencer. A distância é de cinco pontos para sairmos do Z4 deveria ser menor ou até poderia ser uma distância de três pontos fora da zona da degola caso fossemos mais competentes. Palmeiras, Santos e Corinthians não terem interesse no Brasileiro não é garantia alguma de uma vitória vascaína. O Vasco estar em melhor fase é algo pra lá de relativo, e para isso basta vermos que somos o de pior rendimento nos confrontos diretos contra os times que lutam contra o rebaixamento.

E por último: o Vasco ser o que é e ter a sua história não impediu que caíssemos outras duas vezes antes.

Cada vascaíno tem suas razões para acreditar ou não no milagre. Não se pode julgar quem escolhe o coração e nem quem opta pelo cérebro para acompanhar esse fim de Brasileiro. Os primeiros estão cumprindo seu dever como torcedores; os últimos têm ao seu lado a razão para lhes referendar o ponto de vista.

Quem está certo? Os dois (ou nenhum). Como julgar o sentimento de um torcedor? Só posso falar sobre a minha escolha. E para mim, por tudo isso ou apesar de tudo, ainda dá.

Tá liberado acreditar

escolhaApós o jogo Ponte Preta 0 x 1 Vasco, o jornalista Paulo Calçade comentou no programa Bate-Bola da ESPN Brasil a situação vascaína com a vitória. Obviamente julgou ainda complicadíssima a missão do time, mesmo com os três pontos conquistados fora de casa. E justificou sua opinião mostrando a tabela da competição: à época, o Vasco estava à 11 pontos do Figueirense. E o próprio Figueira tinha os mesmos 11 pontos de distância do São Paulo, então com 38 pontos e empatado com o quarto colocado. Completando seu raciocínio, Calçade vaticinou: o trabalho que o Vasco terá para escapar do rebaixamento será o mesmo que o Figueirense terá para chegar ao G4.

Eis aí onde errou feio o jornalista. Ao comparar as duas situações como uma mera operação matemática, Calçade argumentou falaciosamente. Ele ignorou completamente as dificuldades de cada uma das missões: enquanto o Figueira teria que superar adversários muito mais complicados para conseguir uma vaga na Libertadores, ao Vasco cabe o trabalho de fazer mais pontos que os últimos colocados na competição.

A rodada de ontem, na qual o Vasco venceu o Furacão e quase todos os outros resultados lhe foram favoráveis provou isso, jogando por terra a comparação com o Figueira: o time catarinense perdeu, a diferença deles para o Vasco diminuiu e a distância entre São Paulo e Figueirense ficou maior.

Não estou querendo aqui desprezar as probabilidades e nem mesmo esquecer o desempenho horrível do Vasco ao longo do campeonato. Se os cálculos matemáticos nos colocam como virtualmente rebaixados, não sou eu quem vai discutir com os números. Mas isso é uma projeção, algo que só ocorrerá se tudo o que acontecer daqui pra frente for semelhante ao que aconteceu antes. A probabilidade não leva em consideração a motivação de uns, nem a queda de rendimento de outros. E, mais importante, toda projeção muda a cada jogo, a cada resultado positivo de um lado e negativo para o outro.  Antes do jogo contra a Ponte, estávamos com 99% de chances de cair. Hoje, estamos com 96%. Quem pode afirmar categoricamente a impossibilidade de que até a 38ª rodada esse número esteja em 0%?

É por isso que utilizar números – seja de pontos, seja de número de vitórias que precisamos para escapar – para justificar a descrença na permanência do Vasco na elite é inútil nesse momento. Nem nos faltam 9 vitórias e nem tempos que chegar aos 47 pontos. A frequência com que citam esse número como o santo graal na competição é tão grande que chega a levantar a desconfiança de que só é tantas vezes repetido para desestimular o torcedor. É sempre bom lembrar: ano passado, o 12º colocado terminou com os tais 47 pontos. E o Palmeiras se livrou com 40 pontos.

Ainda há muita água pra correr. Os times que cresceram (muito às custas dos moles que nós mesmos demos) voltaram a cair de rendimento justo quando o Vasco cresce. Nossa situação ainda é crítica, mas os últimos jogos nos permitem sim ter um pouquinho mais de otimismo. Em outras palavras, a escolha em acreditar está liberada.

A verdade dói

Truth-Hurts-485x728A matéria do Globoesporte.com com o pré-jogo entre Vasco e Palmeiras trouxe um parágrafo que me incomodou um pouco por parecer exagerado. O trecho citado dizia o seguinte:

De estádio novo em folha, média de público mais alta da competição, programa de sócios tinindo e diretoria jovem, as afinidades históricas do Palmeiras com o Vasco hoje parecem rascunho bem distante da realidade carioca – com capacidade limitada e públicos baixíssimos em São Januário, com a volta do setentão Eurico Miranda à presidência e mais de 100 mil sócios a menos que o Verdão.

Meu incômodo pode ter sido coisa de torcedor, que conhece a história do seu clube e nunca aceita tranquilamente críticas, ou mera empolgação por conta das três vitórias em sequência. Seja qual tenha sido a razão, era claro que o fato de eu não ter gostado do que li aconteceu por motivos emocionais, algo completamente desprovido de racionalidade.

Mas aí veio o jogo. E a razão voltou na hora. A razão do meu incômodo foi um só: a verdade dói. Evocar nossa história e passado são argumentos válidos apenas para o torcedor vascaíno. Na prática, a distância gigantesca entre Vasco e Palmeiras hoje é algo tão visível que apenas os completamente cegos podem refutá-la.

Dói ver que o Verdão passou pelos mesmo problemas que nós há bem pouco tempo. Como eles, ficamos muito tempo sem títulos, com credibilidade em baixa e com um conturbado cenário político. A diferença é que o segundo descenso palmeirense serviu de lição. Já o nosso, não.

O Palmeiras caiu em 2012, subiu – como deveria, sendo campeão da Série B – em 2013, passou por naturais problemas no seu retorno à elite e hoje tem o cenário descrito no início da coluna. Um sinal da competência do time paulista: em 2013, o goleiro titular do Vasco preferiu ir para o Parque Antártica para disputar a segundona a continuar na Colina. E Prass acabou acertando. Trocou os atrasos salariais por um projeto que começa a dar frutos.

Já o Vasco caiu em 2013 e fez uma Série B vergonhosa no ano seguinte. Poderia mudar tudo em 2015, se modernizando, buscando o profissionalismo e aceitando que não há mais espaço para amadorismo agora que o futebol se tornou um negócio. Mas preferimos – e falo isso por todos, já que cada torcedor que poderia se associar a tempo de participar da eleição e não o fez também tem sua parcela de responsabilidade – olhar para o passado e voltar para 2001.

E enquanto os que olharam para o futuro se destacam, nós voltamos a cometer os mesmos erros e repetir uma história que já não deu certo. O resultado está aí. E se continuarmos nessa mesma toada, poderemos ter um fim de ano tão terrível que nenhuma vitória sobre os rivais do Estado ou mesmo o título carioca chegará perto de compensar.

A partida de ontem foi de um simbolismo atroz para a torcida vascaína. Em campo, a equipe palmeirense mostrou na prática como uma gestão competente pode trazer os resultados que todos esperam. E fora do gramado, enquanto quem critica com razão a incompetência é expulso das cadeiras sociais, nosso presidente abandonou sua cadeira e o jogo antes de ver a goleada se concretizar. Talvez porque a verdade doa ainda mais para os responsáveis pelos fracassos.

O erro do otimista (ou nivelando por baixo )

otimismoSport e Goiás lideram o Brasileirão. Dos sempre apontados como favoritos, os gambás são os melhores colocados, mas não conseguiram ganhar nem do Fluzim. Galo, São Paulo e Santos perderam para times menores. O Palmeiras, cheio de bons jogadores, está com dois pontos apenas. O Inter está na parte debaixo da tabela e o Cruzeiro na zona de rebaixamento (fazendo companhia aos mulambos, que volta e meia é apontado como um dos postulantes ao título, basta que “cheguem alguns reforços”).

Ah, sendo assim, a campanha do Vasco não é ruim! Estamos jogando na média dos outros times, estamos invictos e o time está “encaixado”. Só falta acertar o gol para deslancharmos. Não vamos ter problemas nesse Brasileiro!

Esses são os argumentos dos vascaínos otimistas. E como não existe lógica no futebol, suas previsões podem sim se concretizar. Mas os argumentos utilizados são falaciosos e não refletem a realidade, nem de um campeonato com 38 rodadas, nem do próprio Vasco.

O campeonato estar no começo é um dos pontos que nos favorece? Relativamente, já que esse começo não é uma vantagem apenas para o Vasco. Um monte de times que estão na parte de baixo da tabela também pode se recuperar e a olhos vistos têm mais recursos que nós para isso. Inter e Cruzeiro, terminada a Libertadores, certamente renderão mais. Os gambás e o São Paulo estão com problemas extracampo (o primeiro, com salários em atraso, o segundo, sem um treinador), e ainda assim bem próximos à ponta da tabela. O Galo teve duas partidas fora e na que perdeu, foi superior o tempo todo. Santos e Palmeiras têm bons elencos e ainda têm lenha pra queimar na competição.

Já o Vasco, por mais que nos esforcemos para ver que não jogamos mal apesar dos três empates, é isso aí. O time até pode ter o tal do encaixe, mas é o mesmo encaixe que apresentamos no Estadual. Tanto que o time joga da mesma forma, com as mesmas – poucas – qualidades e os mesmos – em maior quantidade – defeitos. Estamos invictos, não jogamos mal e merecíamos vencer as três partidas que tivemos? Podemos concordar com isso, mas a impressão que temos é que jogamos no nosso limite. Mais que isso, com esse elenco que temos, será difícil.

Não falta ao Vasco acertar o gol para termos um desempenho melhor no Brasileiro. Isso nos falta desde o Estadual. Fomos campeões, mas nosso ataque foi um problema ao longo de todo Carioca. A falta de um meio de campo que articule jogadas e de laterais que consigam concluir jogadas de linha de fundo foi o que causou nossa dependência das bolas paradas. Em um campeonato do nível do Carioca, conseguimos o título. No Brasileiro, mesmo que “nivelado por baixo” como argumentam os otimistas, isso não vai ser o bastante. Prova disso? Três rodadas, três empates e o único gol que fizemos foi….num lance de bola parada.

Quando o torcedor acredita que o Vasco se sairá bem no Brasileirão porque os outros times são ruins, quem está nivelando por baixo é o próprio torcedor. É querer acreditar que os outros times não jogarão mais do que estão jogando agora e que apenas nós vamos ter uma melhora significativa. Crer nisso é um perigo, que se ficar apenas com a torcida nem é tão ruim. O problema é se a diretoria também engolir essa historia e não se movimentar para trazer reforços. Temos um time esforçado? Temos, mas isso não é o bastante para livrar ninguém de complicações no Brasileiro.

O engano do otimista é achar que o Vasco não vai ter problemas porque os grandes clubes estão mal. O que deve servir de exemplo não é o Cruzeiro no Z4 ou o Galo perdendo para o Furacão, e sim o Sport, Goiás, Atlético-PR, Ponte, Chapecoense e Avaí, que estão acumulando pontos que podem ser importantíssimos no fim do Brasileiro. Os pontos que perdemos, principalmente nos empates na Colina, se não farão falta para nos garantir na Série A, poderiam fazer a diferença em objetivos mais nobres, como uma vaga na Libertadores.

Isso, claro, se Doriva conseguir fazer seu time jogar mais com os jogadores que tem ou se a diretoria se virar para reforçar as posições mais carentes da equipe.