Ao gosto de Maquiavel

machiavelli-O assunto é meio velhinho, mas como não comentei no Blog da Fuzarca, acho oportuno fazer alguns breves comentários por aqui: Edmundo e Juninho Pernambucano, ambos com dívidas a serem pagas pelo Vasco, estão tendo problemas para receber os valores do clube. No caso do primeiro, a diretoria fez um acordo, mas não o cumpriu; com o segundo, ainda pior, o jurídico do clube sequer quis fazer um arranjo para acertar o débito.

Curioso ver a diretoria das “dívidas equacionadas”, da “responsabilidade financeira” e da que criticou tanto a gestão anterior por não cumprir o acordo com o Romário (aquela dívida que sequer tinha comprovantes de valores) agir dessa forma. Reclamar que as dívidas são da gestão anterior ou, no caso do Juninho, que a ação se iniciou perto da mudança de comando do clube também é engraçado, já que o mesmo aconteceu em outras cobranças judiciais quando a gestão Dinamite recebeu o poder dessa mesma diretoria.

Por uma dessas coincidências da vida, os dois são ídolos da torcida e não são correligionários da atual diretoria. Juninho é desafeto do Eurico desde 2001 e Edmundo atualmente é tão oposição que chegou a declaradamente apoiar uma chapa que disputou as eleições contra o Dotô. Diante disso, fica óbvio o caráter revanchista do calote. É o típico caso da máxima “aos amigos os favores; aos inimigos os rigores da lei”, de Maquiavel: para o Baixinho, um acordo saiu em tempo recorde; para o Zé do Táxi, a decisão judicial com valores exorbitantes para o VP de futebol foi aceita sem discussões; e, claro, não podemos esquecer o perdão da dívida de R$ 3 milhões para o próprio Dotô.

Acontece que a perseguição a quem possa ameaçar o status quo na política vascaína – e é esse o real problema com o Animal e o Reizinho – nesse caso pode trazer mais prejuízos ao clube. Se ambos resolverem seguir cobrando suas dívidas com o clube e, já que a diretoria não parece interessada em quitá-las, sem aceitar qualquer acordo, a dívida do Vasco com os dois tende a ficar maior do que já é. Não tentar resolver essas questões amigavelmente é colocar diferenças pessoais/políticas à frente dos interesses da instituição. Algo que, infelizmente, parece ser visto com naturalidade pela atual gestão.

Diante disso, parece que teremos que contar com a boa vontade dos dois ex-jogadores para com o Vasco. Juninho já teria feito o compromisso de doar a grana que o clube lhe deve para a construção de um CT. Quem sabe o Edmundo não toma uma atitude parecida e reverte a situação em favor do clube? E seria a vez da ironia ser maquiavélica: dois nomes que podem se tornar importantes para a oposição em um futuro próximo acabariam ganhando pontos importantes junto à torcida revertendo para o clube uma grana firme paga pela situação.

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A melhor defesa é o ataque

juninhoVoltando a falar sobre o que o futuro pode reservar para a política vascaína.

Uma questão que era até meio óbvia, mas que não passou pela minha cabeça em momento algum, acabou por me ser alertada através do e-mail de uma leitora. Sua mensagem tratava das recentes ondas de ataque ao Juninho Pernambucano por parte dos defensores da atual diretoria. Para mim, parecia óbvio que se tratava de uma cortina de fumaça, algo para se atacar em um momento no qual o time atravessava dificuldades tremendas no Brasileiro. Sendo assim, para o órgão oficial do euriquismo e outros veículos ligados à atual gestão vascaína, a melhor defesa seria o ataque: falando mal de alguém não seria necessário falar mal da campanha da equipe.

(Parêntese: lembrando que a razão dos ataques ao Juninho teria sido um suposto oportunismo do ex-jogador ao só comentar a completa descortesia da diretoria em negar um minuto de silêncio pelo falecimento do seu pai. Cabe citar esse link: Juninho só citou o ocorrido em uma entrevista depois de ter sido perguntado sobre sua relação com o atual presidente do Vasco. O tema da conversa nem era esse e sua declaração, obviamente, repercutiu. Ou seja, Juninho não fez uma “denúncia” ou quis se aproveitar do fato. Seu “oportunismo” só surgiu por terem tirado a declaração do seu contexto original. Fecha parênteses)

Além da óbvia tática diversionista – e até para ter algum assunto durante a sequência de derrotas do time no Brasileirão – falar mal do Juninho era algo justificável para os defensores da diretoria até por ser um hábito: qualquer pessoa que desagrade seu líder supremo se transforma em vilão da noite para o dia. Se isso aconteceu até com o Edmundo (que depois de cometer a afronta de declarar apoio a uma chapa adversária ao grupo político que atualmente comanda o clube, deixou de ser ídolo para ser um traidor), porque não aconteceria com o Juninho, desafeto do atual presidente desde sua saída do clube em 2001?

Mas eis que o citado e-mail que recebi me colocou diante de outra possibilidade, bastante viável e que explicaria a insistência nas pancadas pra cima do Juninho. O ponto principal da mensagem recebida foi a seguinte frase:

“Na minha opinião, os casaquistas estão tentanto matar no nascedouro qualquer possibilidade de que, no futuro, o Juninho venha a se candidatar à presidência do Vasco.”

Era tão óbvio que passou batido. Por mais que os euriquistas ataquem o Juninho há quase de 15 anos, grande parte da torcida ainda o trata com o respeito que merece pelo que fez pelo Vasco e muitos ainda o consideram um ídolo. E isso é um problema por dois motivos. Primeiro, porque para os seguidores do Dotô só pode haver dois tipos de ídolos no Vasco:  os indicados por ele ou o próprio Eurico; Segundo, porque eles sabem que um ídolo sempre pode virar uma força política dentro do Vasco. E os participantes da atual diretoria não podem permitir que isso aconteça.

Talvez não acontecesse com Juninho. Mas a partir do momento que o craque passou a ter maior espaço na mídia como comentarista, ele se tornou um perigo em potencial. Não é nada agradável para a atual gestão ver seus erros apontados diante de audiências globais. E mais perigoso ainda é ter alguém que já declarou haver pensado em comandar o Vasco no futuro ter tanta exposição.

Teoria conspiratória ou uma escancarada estratégia para impedir que um ídolo tenha possibilidades de se tornar um adversário político perigoso? Deixo essa questão para os leitores refletirem, não sem antes fazer um último comentário: da última vez que um craque do passado se aventurou na política do clube, o grupo que atualmente comanda o Vasco ficou fora do poder por seis anos.