Gotas de esperança

Douglas, a joia da Colina, marca o gol da vitória. (Foto: reprodução da TV – Sportv)

Jogos bons passam rápido.

Jogos ruins dão a impressão de que o relógio foi arremessado em um aquário. 

O tempo passa arrastado e aquoso como o gramado de São Januário na partida de ontem, diante do Boavista. 

A melhora do Vasco sob o comando de Milton Mendes é tão nítida quanto tímida. E não por um problema do treinador. Mas por uma limitação do elenco que se torna mais clara a cada peleja que vemos.

Ontem, assistimos excesso d’água e escassez de futebol. Fruto de faustas contratações com planejamento rarefeito. 

Não fosse assim, Julio dos Santos como zagueiro teria sido apenas um devaneio do técnico anterior e não uma realidade do comandante atual. Há mais exemplos, cristalinos àqueles que se propõem a analisar o Club com a mínima criticidade possível.

Destaque-se o retorno de Andrezinho, relevante nesse elenco, e a redescoberta de Yago, cujo crescimento salta aos olhos.  Há, ao que parece, um respeito maior ao futebol de Douglas. Mas o time ainda carece em demasia dos lampejos de Nenê, os laterais necessitam participar mais do jogo e, bom, sabe-se lá o que podemos esperar de Luiz Fabiano. 

Se a equipe não causa mais aquela nuvem de lágrimas, ainda considero cedo para despertar um temporal de amor.

Já deu pra notar que Milton interrompeu o naufrágio que se demonstrava inevitável com Cristóvão. A caravela cruzmaltina, contudo, demanda desafios mais turbulentos para termos certeza de que 2017, de fato, não irá por água abaixo. 

A esperança chega gota a gota. Torçamos para que não vá pelo mesmo ralo de onde parece ter saído nossos dirigentes.

Não zombem da minha inteligência

Pouco importa-me a partida. Não sou profissional de análise. Sou mero torcedor que opina, com possíveis e incontáveis equívocos, sobre tática, técnica e esquemas de jogo.

Porém, me formei em comunicação. Estudei análise do discurso e ler o que diz o texto e explorar as entrelinhas não ditas é uma especialidade que adquiri ao longo de minha formação acadêmica e pela experiência no mercado de trabalho na publicidade e no jornalismo. Continuar lendo

Farsa decupada

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Eurico entrega um suposto documento contábil a Mauro Cezar Pereira

Por um sem-número de razões, cessei meu compromisso periódico de escrever sobre o Vasco por essas bandas. Não precisam preocupar-se, não voltarei a fazê-lo.

Contudo, ante a participação do presidente do Vasco, Eurico Miranda, no programa Bola da Vez da ESPN no dia 14/3, convém fazer um registro – quase um desenho – do que prometeu o comandante cruzmaltino acerca das finanças ao jornalista Mauro Cezar Pereira e o que, de fato, entregou.

O compromisso de Mauro Cezar foi:

Eu não sou um especialista, mas eu procuro os especialistas para me ajudar nessas horas, que é o que vou fazer com esse material que o senhor acaba de me entregar.

Antes, Eurico disse:

Algumas coisas eu sei que é, mas, eu vejo você acompanhar e vou dar que é pra você ler e reler…

O problema é o seguinte, você entra – e desculpe eu ter que abordar também esse assunto, que é pra poder dizer também porque que é o Cristóvão! -, eu peguei um clube com R$ 700 milhões de dívidas. Eu peguei um clube que eu deixei, que eu tinha deixado, com R$ 130 milhões de dívidas, que eles logo que chegaram transformaram em R$ 300 (milhões)… Maquiagens para achar que tinha isso, contigência, sei lá o que for… E me entregaram com R$ 700 milhões de dívidas.

E o que que eu precisava fazer? Primeiro eu precisava tentar ajustar para poder… e isso teve como consequências o time do futebol, e… Paguei nesses dois que estou lá R$ 170 milhões de dívida passada, além daquilo que a gente fez. Fora o que a gente realizou patrimonialmente, que eu também tô te dando.

Ufa! Muita coisa, não? Pois bem, Mauro foi buscar ajuda com o Executivo do Itaú BBA, Cesar Grafietti, que inicia sua análise de maneira bem direta:
Os dados apresentados pelo Vasco neste relatório são insuficientes para uma análise. Trata-se de um punhado de informações desencontradas relacionadas a Dívidas e Passivos.
Não seria necessário ler o restante, diante dessa afirmativa, para inferir que, noves fora a pavonice, Eurico entregou um grupo de papeis que contabilmente pouco serve.
O presidente, porém, foi além na entrevista. Olha só o que ele, textualmente, afirmou:
E aí eu vou aproveitar, para você que é um especialista, que eu tô falando muito desse negócio contábil, são números. Depois quando você tiver – eu vejo que você gosta disso. -, você analisa aqui essa realidade financeira do Vasco e a situação patrimonial do Vasco antes de dezembro de 2014 e hoje, não, em dezembro de 2016, que a gente fechou em dezembro de 2016 é a mesma coisa a realidade financeira e hoje, só pra você ter uma ideia, que pode parecer tudo – aí ficam falando, falando, falando – e a primeira coisa que eu tive que fazer no Vasco, tinha um monte de barbaridades lá, mas a primeira coisa que eu tive de fazer foi pagar R$ 12 milhões, sem ter um tostão em caixa – e isso é normal não ter caixa no clube -, tive de pagar R$ 12 milhões em impostos pra eu poder conseguir tocar, conseguir certidão que, aliás, talvez seja – quer dizer, fizemos naquela época e em dois anos e poucos de administração – o Vasco tá rigorosamente em dia com suas certidões, com as certidões de débitos fiscais, com as certidões de fundo de garantia, que é um ônus que você tem, pagando aquilo atrasado e estando em dia, isso aqui é que é pra depois você, por favor…
Sobre tudo isso, diz Cesar:
…podemos tentar extrair ideias, mas isso em nenhum momento dá margem para qualquer afirmação sobre a gestão do clube no período citado, entre o final de 2014 e meados de 2016.
(…)
…comparando novembro de 2014 com julho de 2016 (…) dos R$ 172 milhões, se deduzirmos os R$ 114 milhões de Profut – que vem sem esforço de caixa, apenas baixa automática – a redução potencial de Dívida cai para R$ 58 milhões. Ainda assim um número considerável, mas inferior ao esforço potencial apresentado.
O executivo vai além:
Ou seja, as duas informações mais relevantes — aumento da dívida entre 2008 e 2014 e pagamento entre 2015 e 2016 — não parecem ser completamente corretas, ressalvando-se que a fonte é incompleta.
E vaticina:
…exceto se 2016 tenha sido um ano extraordinariamente bom, sob o ponto-de-vista de balanço, há poucas chances das dívidas terem caído na magnitude informada, exceto pela adesão ao Profut, que perdoou juros e multas.
O final da análise é um verdadeiro balde de água fria na mais débil esperança que ainda possa estar acesa sobre essa gestão.
… falta o mais importante, que é o balanço de 2016 (ainda não publicado). Sem esta peça, e com os dados disponibilizados pelo clube, não é possível confirmar nem duvidar do que foi dito pelo presidente vascaíno …
Eurico Miranda e sua verdade deturpada e autoritária não me surpreendem. O que me causa espasmo ainda são os que dão crédito a ele ou aqueles que preferem duvidar de novos nomes para agarrar-se a uma certeza tão inconfiável quanto esta.

A análise completa apurada por Mauro Cezar encontra-se aqui, no blog dele (com link para outra análise feita anteriormente por Amir Somoggi, profissional especializado em estudos envolvendo balanços dos clubes de futebol).

Se há esperanças ainda para o Vasco da Gama, sinceramente, não sei. A certeza que me resta é que, se houver, ela necessariamente não passa pelo manutenção deste senhor à frente do Club.

Sugestão à oposição

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O Vasco sempre foi da torcida. E precisa voltar a sê-lo. Foto: Site oficial

Em um momento que o Brasil discute sua postura democrática, urge reconhecermos a ditadura que vive o Vasco, ironicamente um dos clubes que tem a participação popular a correr nas veias de sua história.

Uma ditadura legitimamente eleita, registre-se, com um estatuto arcaico e ultrapassado, em um pleito cujo quadro votante revelou inúmeras dúvidas jamais sanadas. Porque, afinal, votos não são, necessariamente, sinônimos de democracia.  Continuar lendo