O Mister Milton

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Amigos vascaínos,

Depois de algum tempo sem escrever, cá estou eu de novo para tratar dos assuntos do nosso glorioso clube da Colina. Muito bacana ver essa motivação que tomou conta do torcedor vascaíno nas últimas semanas. Se antes era um torcedor cabisbaixo, com a camisa guardada no armário e com voz rouca, agora ele brada confiante, anda de cabeça erguida e enverga o manto do clube.  O número de sócios cresce, a média de público cresce e o caldeirão ferve como nunca.

Claro que não há espaço para utopias, os desafios do time são muitos, todos sabemos, mas aquela luzinha de esperança no final do túnel apareceu e essa é já suficiente para que o apaixonado torcedor volte ao campo de batalha disposto a pelejar pela sua cruz de malta. Eu sempre costumo dizer que um torcedor é antes de tudo um sonhador. Um torcedor suporta a dor da perda, suporta a dor da derrota, mas não suporta a dor da desesperança. Dêem ao torcedor um motivo para sonhar e ele volta ao clube apaixonado, disposto a defendê-lo com unhas de dentes.

O grande responsável dessa mudança no ambiente formado em torno do esquete vascaíno, a meu ver, está no banco de reservas. Milton Mendes chegou disposto a não ser mais um. Ele veio para mudar o Vasco, para impor sua filosofia e aos poucos vem se tornando numa grande preferência entre os torcedores.

Sim, Milton é tratado de maneira diferente pela torcida vascaína por reunir duas características fundamentais para um comandante: coragem e trabalho árduo. Não que os outros treinadores não tivessem também um pouco dessas características, mas não de forma conjunta e tão marcante como tem Milton Mendes. Ele não se furta ao risco, não se furta ao infortúnio. Milton é do tipo de pessoa que pode até perder, mas perde pelas suas idéias e não pelas idéias de outros.

E não é bem melhor assim? É muito ruim não conseguir uma coisa e acabar pensando que poderia ter feito diferente, que poderia ter tentado de outra forma. Se for para sair derrotado, que seja com a consciência tranquila de quem tentou de tudo o que estava ao alcance.

Quantos treinador passaram pelo Vasco nos últimos anos e reclamaram da postura adotada pelo Rodrigo? Possivelmente todos. Quantos tiveram coragem de bater de frente com ele? Só o Milton.

Jorginho tentou e foi fritado na diretoria até a demissão. Milton não tentou, fez. A diferença com que uma ideia é colocada muda tudo. É possível apresentar algo, mesmo sendo justo, com autoridade ou com submissão. A diferença está na convicção que se tem nos próprios argumentos. Se o profissional acredita naquilo que faz, ele impõe a situação de tal maneira que se torna impossível ficar contra sem correr o risco de assumir todo o peso de um possível fracasso. Se o profissional chega com a ideia pela metade, sem ter certeza do que quer, com vergonha de falar, acaba engolido pelos fatos. Perde e não perde por si, mas por não acreditar em si. A dor da perda é bem maior.

Nenê é um ídolo da torcida, porém já há um quase consenso de que não consegue mais impor dinamismo ao meio de campo, tão necessário para um clube que carece de maiores valores individuais como o Vasco. Ou um time impõe sua técnica, ou impõe sua tática, seu dinamismo, sua velocidade. O Vasco era um clube vazio. Tecnicamente entrava em campo abaixo e fisicamente era engolido.

Milton não pensou duas vezes e sacou Nenê do time. Foi para o risco, poderia dar errado e colocar a própria cabeça na guilhotina. Deu certo. O time cresceu, se tornou mais flexível e competitivo. A perda técnica foi compensada com grande proveito pelo ganho em um meio que transita de forma muito mais rápida entre suas linhas. O Vasco ficou mais jovem, com uma cara mais moderna e o próprio Nenê se beneficiou. Deixou de ser um jogador que se arrastava em campo e perdia gols claros (como contra Palmeiras e nas finais do carioca), e se tornou um que entra na hora certa e decide uma partida. É uma situação em que todos ganham. O jogador rende mais com o time mais forte e o time cresce sabendo que tem um trunfo no banco que pode entrar e resolver um jogo.

Outra medida já há muito cobrada era o afastamento do Thales. E aqui cabe um parêntese meu, considero Thales um dos melhores centroavantes jovens do futebol brasileiro, jogador de potencial enorme que pode chegar longe na carreira. Ou pode encerrar a carreira no Duque de Caxias. Depende só dele. Enquanto ele não se decide, o Vasco não pode esperar. Quem quer jogar tem preferência, quem quer comer hambúrguer aguarda do lado de fora. Não deveria ser difícil e não é. Mas tem que ter coragem.

Mais uma vez, Jorginho tentou brigar contra isso. Mas ficou naquele meio-termo, naquele vai não vai. Milton foi lá e fez. Perdeu o Thales temporariamente mas ganhou a moral de exigir que todos se dediquem ao máximo para jogar. O grupo se fortaleceu.

E o trabalho? Milton é incansável. Vê jogo da base, dos adversários da próxima rodada, vê jogo de adversário de daqui a duas rodadas e não para. Nunca é demais trabalhar. Domingo era folga, ele poderia ficar em casa tomando uma cerveja ou mesmo descansando com a família, mas foi lá em Recife ver nossos futuros adversários.

Com isso, o Mister conquista a confiança da torcida. É bom ver na frente do time alguém que joga limpo, que faz o que deve ser feito e que trabalha de forma incansável. A torcida confia em quem é correto e faz o melhor para o Vasco, sem mimimi, sem estrelismo, colocando o clube acima de individualidades. A torcida compra a briga e vem junto.

E com a torcida junto, esse time de fraco se torna médio, de médio se torna bom e o crescimento não para.

A torcida vascaína é o maior combustível desse clube. E com o tanque cheio, o Vasco com certeza pode chegar bem mais longe do que qualquer um imaginaria.

Não duvidem dessa torcida e nem desse clube.

Divisões de Base

Se o Milton Mendes é o primeiro fator de mudança do vascaína, o segundo é sem dúvida a garotada da base que vem surgindo e tomando de assalto o seu lugar no time.

Douglas hoje já é o principal jogador do Vasco. Pet vem se tornando no motor do meio de campo. Henrique se firmou como dono da camisa seis.

E tem mais por aí. Desde que comecei a acompanhar o Vasco, e isso já tem tempo, poucas foram as vezes que vi uma garotada tão boa e em tanta quantidade subindo ao mesmo tempo.

João Pedro, Ricardo Graça, Alan Cardoso, João Vitor, Andrey, Cosendey, Dudu, Pet, Paulinho, Paulo Vitor, Robinho…

Sem esquecer dos talentosos Evander e Caio Monteiro, que tenho certeza ainda vão explodir com essa camisa.

Se existe uma saída para o Vasco, que atravessa hoje um dos momentos mais difíceis de sua história, essa passa necessariamente pelo uso de suas divisões de base. Não há como recuperar o Vasco sem isso.

Esses garotos podem colocar nosso clube lá em cima de novo

É fundamental que o clube os priorize e os trate com todo carinho para que isso aconteça.

Twittadas:

– Para não dizerem que defendo cem por cento o trabalho do Milton mendes, discordo da maneira com que ele afastou o Guilherme Costa do time, sendo que o Guilherme vinha sendo o melhor jogador do Vasco no campeonato estadual

– Um jogador que tem me surpreendido muito no Vasco em 2017 é o Manga Escobar. Confesso que quando ele chegou achei que fosse somente um colombiano folclórico que nada fosse agregar ao grupo. Pelo contrário, toda vez que entra mostra que tem valor.

– Se Manga é a surpresa positiva, a negativa é o Muriqui. De rápido jogador de lado de campo, se tornou um meia lento e sem criatividade. Joga ali por dentro, bem pesado e errando passes. Parece um jogador do time de casados querendo fazer graça no time dos solteiros. Sem condição.

– Pretendo voltar mais vezes nas próximas quartas nesse mesmo espaço. Saudações vascaínas.

Twitter: @hfloret

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Twittadas – 03/04/2017

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Ainda longe do ideal, o time do Vasco já mostra evolução em relação aos jogos anteriores feitos sob o comando de Cristóvão Borges. São três vitórias em quatro partidas e um esboço de time titular começando a se formar com participações fundamentais de Nenê, Douglas e Yago Pikachu.

A defesa, antes tão criticada, cresceu muito desde a chegada do novo professor. São somente dois gols tomados em quatro jogos, ambos em um momento em que o time estava com um jogador a menos no clássico contra o Flamengo.

Rafael Marques vem sendo a principal surpresa positiva do Vasco no ano até o momento e reforça a ideia de que a diretoria fez bem em não pagar o valor pedido por Rafael Vaz na renovação de contrato.

Dos seis gols marcados desde então, somente um não teve a participação direta de Nenê ou Pikachu, justamente o gol marcado por Douglas no campo encharcado de São Januário na partida contra o Boavista.

Em todos os outros gols tivemos participação decisiva de um deles, contribuindo Pikachu com três gols e Nenê com um gol e três assistências.

Apesar da reclamação de parte da torcida com uma suposta queda de produção do Nenê, os números mostram que ele segue decisivo para o rendimento ofensivo do time, inclusive com o posto de artilheiro da equipe no ano (feito também alcançado ano passado).

O que causa mais estranheza é um aparente nervosismo sem sentido do meia em alguns momentos das partidas. A discussão pública com Douglas e a recusa em falar com o treinador após uma substituição não são comportamento compatíveis para um dos principais líderes do grupo.

Fabuloso segue sem marcar gols com a camisa do Vasco. Apesar de mostrar lucidez em muitos momentos, é nítida a falta de forma do jogador que chega sem perna para concluir a maioria das jogadas.

Preocupa em relação ao Fabuloso, muito menos o fato de não marcar gols (que devem sair naturalmente) e muito mais a conduta irresponsável que teve no jogo diante contra o rival. Independente do teatro do juiz, a expulsão foi justa e poderia ter gerado uma derrota em um clássico importante onde o time fazia boa partida e provavelmente venceria.

O comportamento errático é assinado embaixo pela diretoria e comissão técnica que oferecem ao jogador a braçadeira de capitão mesmo não dispondo de estrutura emocional e nem história no clube para ser referência dentro do Vasco. Ele que conquiste isso primeiro.

Mas falar o que de uma diretoria que, por discordância política, deixa de homenagear um dos maiores ídolos da história do Vasco no dia do seu aniversário?

Uma das falas do Eurico em recente programa na ESPN mostra bem a forma como ele se coloca em relação ao Vasco: “Se eu fosse para a Sibéria o Vasco acabaria”

É triste ver um jogador como o Thales, com o potencial que tem, prejudicar anos de sua carreira ficando gordo o tempo todo. É inacreditável que o jogador não se conscientize do prejuízo que está trazendo para a própria vida agindo irresponsavelmente.

Garoto Henrique completou cinquenta jogos com a camisa do Vasco. Longe de ser craque, Henrique compõe bem a lateral esquerda e não compromete o time, sempre com atuações regulares.

Henrique é a prova de que a base não serve apenas para revelar grandes craques mas também para fornecer jogadores que podem ser úteis ao elenco. Muito melhor do que buscar apostas em times de menor investimento.

Espero que Guilherme Costa retorne ao time no próximo jogo. Não há qualquer justificativa para que ele não prossiga, no mínimo, sendo um décimo segundo titular, uma vez que vinha jogando muito bem antes da lesão.

A Taça Rio, se vale pouco em termos de conquista, apresenta jogos importantes para o time alcançar mais alguns degraus de evolução que pode ser decisiva na reta final do campeonato.

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O maior do Rio

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Gigante

Em 1923 uma ordem da então Federação de Futebol do Rio de Janeiro julgava dar fim a um clube popular que ousava dar oportunidade aos negros e pobres praticantes do velho esporte bretão. Ao Vasco restavam duas opções: Deixar de ser Vasco e se tornar um igual segregacionista ou ficar fora da Federação, ser expulso dos quadros competitivos do futebol do Rio de Janeiro.  A resposta do Vasco seria óbvia, pensavam os dirigentes da época, fora de nossa proteção esse clube morrerá.

Mas o Vasco resistiu.

Negou essa possibilidade e passou a jogar de forma marginal, em federações paralelas. Colocou em risco seu próprio futuro, mas não abriu mão de seus ideias. O Vasco resistiu e dobrou o status quo da época. Se queriam transformar o Vasco, mais forte que eles, o Vasco os transformou. Ou os fez engolir. O Vasco não se dobrou, eles que tiveram que se dobrar. E negros e operários passaram a ser aceitos em todos os clubes.

Ao revolucionar o futebol o Vasco se fez Gigante.

Monumental

Mas não seria tão fácil assim nossa aceitação. Como não poderiam mais usar a desculpa dos atletas pobres, a segregação seria outra. Vasco não poderia jogar, pois não tinha estádio.

Gigante que já era, o clube reuniu a tropa e construiu o maior estádio da América Latina. São Januário nasceu abençoado. Mais uma vez, ao tentar nos derrubar os adversários nos fortaleceram. Graças a ele nos tornamos donos do maior palco de nossa história.

Hoje, os mesmos rivais que tentaram impedir o Vasco de jogar por não ter estádio, peregrinam pelo país em campos emprestados enquanto mendigam a possibilidade de usar nosso estádio.

Como não poderia deixar de ser, São Januário se tornou palco de grandes eventos: Sediou o grande anúncio da Consolidação das Lei Trabalhistas, sediou concertos de Villa Lobos, foi palco até de desfiles de escolas de samba.

As relvas da Colina viram passar por lá craques como Ademir Menezes, Romário, Roberto, Edmundo.  O Vasco tinha casa e tinha cara. Era o clube do povo. Não porque usava o povo para explorar sua imagem mas porque tinha como missão fazer justiça.

O clube já se tornara gigante, seu ideal o tornou Monumental.

Centenário

  1. Cem anos de uma paixão.

Cem anos que gerações entregavam o amor ao clube suburbano português da cruz de cristo.

Enquanto rivais passavam vergonha no seu centenário, o Vasco conquistava o maior título de sua história. O Brasil era pequeno demais para uma paixão tão forte e a América se tornou vascaína de novo.

Libertador. Cem anos de sua fundação e nenhum troféu poderia ter um nome mais simbólico do que o conquistado em 1998.

Libertadores foram os vascaínos que livraram o futebol do cabedal da aristocracia separatista.

Libertadora era a emoção que tomava conta do peito de todo aquele que ama a Cruz de Malta.

Histórico

Três a zero contra. Intervalo de jogo. Fora de casa.

Era uma derrota certa em um final de ano que nada funcionava. O ano era 2000 e naquele ano o Vasco já tinha perdido dois títulos dado como certos: o torneio Rio São Paulo e o campeonato estadual. O clube, maior vencedor dos anos noventa, parecia encerrar a década de forma melancólica e derrotado.

Mas quem sobreviveu ao preconceito não se dá por derrotado jamais. Um por um os gols foram saindo. O Vasco ressurgia das cinzas e com suas cinzas construía sua história. O Vasco do V de virada aparecia de novo. E mais uma vez a história era contada.

Foi no Vasco que expressões como “bicho”, “Gandula”, “gol olímpico” surgiram.

Foi o Vasco que conquistou o primeiro título do futebol brasileiro fora do país, antes mesmo da seleção brasileira, em 1948.

Foi o Vasco o primeiro clube campeão do Maracanã.

É do Vasco a marca de maior vencedor de clássicos cariocas.

Foi um jogador do Vasco que ergueu a taça de campeão do mundo pela primeira vez

O Vasco é a história do futebol.

Maior do Rio

Quando esse grupo começou a sua caminhada lá atrás, com muita dor e sacrifício, o Vasco foi se incorporando a cada um deles. E cada um deles foi ficando cada vez mais Vasco.

Martin não era só Martin, era também Barbosa,  Carlos Germano, Helton.

Rodrigo era mais que Rodrigo, era também Belini, mauro Galvão, Orlando.

Nenê era Juninho, era Pedrinho, era Felipe.

E todos se tornaram muito maiores pois todos eram Vasco.

Mais uma vez o Vasco estava lá, quebrando barreiras, desafiando a ordem vigente. Se acharam que o terceiro rebaixamento nos destruiria, o clube fez questão de escrever uma nova resposta histórica e vencer todos os rivais não uma, mais duas, três, quantas vezes forem necessárias.  Foram nove clássicos, nenhuma derrota.

O Vasco quando é Vasco é inderrotável.

O Vasco está vivo, muito vivo. E cada vascaíno com orgulho do que representa esse clube, tem que bater no peito e gritar: “Nós vencemos de novo”.

Quando entraram em campo ontem, os jogadores já sabiam que venceriam. Não jogaram bem nos dois jogos finais, pelo contrário, chegaram a atuar de forma pior que o adversário em muitos momentos. Mas nada tiraria esse título do Vasco.

Ontem entraram em campo como gigantes, pisaram no gramado como monumentais, envergaram a camisa como centenários e deixaram o campo como históricos.

Sexto título invicto, o maior campeão invicto do estado.

Aqui é Vasco

O maior do Rio.

Twitter: @hfloret

Eu quero Euricar

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Eurícófobo.

Esse termo foi criado pelo grupo político Casaca para designar pessoas que nutrem um ódio desmedido pelo Eurico. Muitas vezes fui acusado de ser um euricófobo, o que nem sempre foi verdade.

Em contraponto a isso adiciono um novo termo : euricólatra.

Um euricólatra é um sujeito que coloca o Eurico como o ser supremo de sua adoração, passando a se apaixonar e a defender qualquer atitude que seja feita por ele.

Ambos os termos são reduções, são simplificações grosseiras do que não se deve fazer: colocar questões pessoais acima do interesse do clube. Continuar lendo

O sentimento não para

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Ele voltou.

Depois de seis anos, Eurico Miranda volta à presidência do Vasco.

Lembro perfeitamente daquela madrugada de 2008 em que virei a noite esperando a vitória de Roberto Dinamite. A saída do Eurico representou muito para mim. Vasco era um clube fechado, antipático, com uma visão arcaica sobre gestão de futebol, comandado por um presidente arrogante e autoritário, que expulsava sócios e se cercava de puxadores de saco. Eurico acreditava que o vasco era ele e com esse pensamento comandava o clube sozinho com sua arrogância. O mau chefe afasta as pessoas boas. O Vasco era o oposto de tudo o que eu acreditava ser certo, tanto como homem de caráter que sempre fui, como quanto forma de gestão de futebol.

Tirar o Eurico de lá foi difícil. Duras batalhas foram travadas, anos e anos de um Vasco penando nas profundezas do futebol foram necessários para que enfim isso fosse possível. Eurico saiu por um erro banal. Esqueceu de recolher custas judiciais de um processo e por isso foi julgado à revelia, julgamento esse que conduziu à sua saída em 2008.

Roberto Dinamite era meu ídolo. A imagem dele sendo expulso de São Januário com seu filho para mim era emblemática. O Vasco que eu não admirava expulsava o Vasco que eu admirava. Me senti expulso junto com o Dinamite, me senti filho sendo expulso com meu pai do estádio. Me senti torcedor sendo chutado para fora do seu Vasco, senti o verdadeiro Vasco sendo expulso de um clube falso.

A vitória do Dinamite foi a vitória da esperança. Tiramos do clube o ditador que estava manchando nossa imagem, acabando com o nosso passado. Mas Dinamite fracassou e eu não queria que isso tivesse ocorrido. Torci tanto pelo Dinamite que cheguei a colocar em alguns momentos esse sentimento acima da razão. Demorei a ver os erros de tanto que não queria ver. O fracasso do Vasco de Dinamite representava mais do que o fracasso do Vasco para mim como torcedor, representava o fracasso de um Vasco que apostei. O Vasco que acreditei ser o verdadeiro Vasco. A morte de um ídolo é difícil de aceitar, a morte de uma esperança mais ainda. Tal qual Eurico me expulsava do seu Vasco, Dinamite também me expulsou do seu. E eu me senti expulso de todos os Vascos. O que era o Vasco afinal? Procurei pelo verdadeiro clube e não encontrei, a não ser no passado.

Dinamite se tornou o pior presidente de nossa história. Fracassou em todos os quesitos, inclusive no que eu não acreditava que fracassaria que era no respeito ao clube. Dinamite foi político, populista e incompetente. Foi nepotista também e enfileirou o Vasco de apadrinhados, afastou as boas pessoas e ficou sozinho com sua incompetência. O mau chefe afasta as pessoas boas. Se Eurico se cercava de bajuladores, Dinamite se cercava de aproveitadores. Dinamite era um nada, mas tinha o poder e quem queria o poder se aproveitou de sua fraqueza.

Dinamite tinha tudo para ser o maior presidente de nossa história. Nunca um presidente do Vasco teve tanto apoio, nunca a torcida acreditou tanto em um projeto como acreditou no projeto do Dinamite. Mas Dinamite rebaixou o Vasco de todas as formas. Rebaixou em campo e fora de campo. Dinamite estapeou o torcedor que o apoiou um dia e sai do clube muito menor do que entrou. O que resta do ídolo Dinamite? Quase nada. Se Eurico o expulsou na marra uma vez, agora Eurico o expulsa no voto. Triste fim para um presidente que conseguiu não só não ser antagonista de um modelo rejeitado pelo torcedor, como ainda o trouxe de volta ao clube.

Eurico venceu. A vitória do Eurico para mim é uma derrota. Derrota pessoal, pois vi que acreditei em um projeto falido. Derrota pessoal, pois verei de novo aquilo que não acredito reinando em São Januário. O Vasco é o clube dos mensalões, da briga das torcidas organizadas, do charuto na frente da gestão de futebol, do pessoal na frente do clube, do soco na mesa na frente do conhecimento. O Vasco é novamente o clube dos bajuladores.

Não vou mentir, tenho muitos amigos que apoiam o Eurico. Discordo de todos eles, mas respeito a vontade de cada um. Eles hoje estão em festa, enquanto eu me sinto derrotado. Não apoiei nenhuma chapa nessa eleição, embora tenha votado no Julio Brant. Minha derrota não é política é de modelo. Prevaleceu o modelo errado e prevaleceu porque o que achava que era certo se mostrou mais errado ainda.

Discordo de quem acha que o Eurico mudou. Ele não mudou em nada. Ele é o mesmo, e o comportamento dele ontem deixou isso claro. Discordo também de quem acha que ele tem a mesma força de antes. O futebol hoje é outro, quem não faz direito não tem chance sequer de começar a competir. Hoje temos clubes que arrecadam trezentos milhões por mês. Não há soco na mesa que reverta essa desvantagem. Se não gerir direito, não tem como vencer. Se não souber ir ao mercado e buscar as receitas, se não trouxer o torcedor, se não conquistar os investidores, já era.

Achar que Eurico será um bom presidente é como ir de pochete em uma festa pensar que vai arrasar no visual. É procurar uma solução velha para um mundo novo. Pode dar certo? Pode, mas a chance é pequena.

Também não acredito que o Eurico consiga ser o mesmo ditador de anos atrás. O mundo mudou, como disse. Ditaduras hoje são muito mais difíceis. As pessoas são vigiadas o tempo todo, as redes sociais ampliam as denuncias. Qualquer ato isolado é filmado por alguém e a internet multiplica. As vozes também são muitas, não só a mídia tradicional, mas temos muitos blogs e sites menores que ajudam a dar vazão a todo tipo de grito. Eurico será um presidente sitiado, como todos são nesse mundo atual. Terá menos poder para agir, pois conviverá em um futebol em que o profissionalismo é obrigatório e menos espaço para truculência, pois viverá em um mundo vigiado por tudo.

O que posso fazer é torcer. Torcer para dar certo. Eu só torço a favor, nunca contra. Torcer para que o Eurico saiba preservar sua parte boa (e ele tem uma parte boa que é a de ver o Vasco como um clube grande, diferente da visão medíocre do Dinamite) e saiba colocá-la em prática nesse futebol de hoje. Que ele saiba desarmar os espíritos e entender que aproveitar agora que está por cima para pisotear só vai reproduzir o efeito de afastar as pessoas e deixá-las com mais raiva. O Vasco não precisa disso. Quem está por cima tem que ser magnânimo. Um grande pacto a favor do Vasco, com todos remando juntos para resgatar esse clube seria o ideal. É pedir muito do Eurico? Sim, mas é a forma como vejo o Vasco.

Nada mudará para mim. Não mudaria se vencesse o Julio, o Roberto Monteiro, não muda com a vitória do Eurico. Continuarei sendo sócio do clube, continuarei indo aos jogos, continuarei irritado com as derrotas, continuarei feliz com as vitórias. Não torço por dirigentes, torço pelo Vasco. Todos eles são nada perto da grandiosidade desse clube e é nessa grandiosidade que aposto. O Vasco voltará a ser grande, queiram ou não, pois é o destino do Vasco.

Continuarei aqui reclamando e criticando, exigindo o Vasco que quero. Continuarei fiscalizando, sugerindo, propondo. Abandonar o clube jamais. Deixar o clube de lado só quando eu tiver sete palmos abaixo do chão. Até lá eu serei Vasco e como vascaíno, mesmo discordando de todas as suas práticas habituais, desejo sorte ao novo velho presidente. O sucesso do Eurico será o meu sucesso como vascaíno, o fracasso dele o meu fracasso. Faça o bem ao Vasco que terá meu apoio. Honre o passado do clube, nossa história de justiça, honradez e moral e terá em mim um defensor. Faça diferente e terá em mim um crítico incisivo, como teve nos últimos anos.

Ontem eu perdi, mas muitos ganharam.

O Vasco gigante segue e você que está pensando em desistir, conclamo a não fazer isso. Não sei de que forma, mas vou participar da eleição em 2017. Estarei em alguma chapa, chega de ficar de fora, quero estar dentro. E convidarei a cada um dos meus leitores e amigos para estarem comigo nessa luta. Não deixarei ninguém para trás. Se você torce pelo Vasco, ama esse clube como eu amo continue junto do clube. Quem ama o Vasco tem que seguir em frente, mesmo com o sentimento ferido, pois a paixão é o que dá sentido a vida.

O sentimento não para.

Não pode parar.