Ensinando a freguesia

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Foto: site oficial do Vasco – Carlos Gregório Jr.

Os sábios da bola sempre souberam. Em estádio, a bandeira não foi feita para ser fincada. Ali, seu papel é ser tremulada, ao sabor dos ventos e da energia que os atletas, dentro de campo, transmitem e absorvem, numa ação simbiótica com sua torcida. 

Faltou prudência a quem premeditou a estultice de desrespeitar o círculo central do gramado espetando-lhe um mastro que ostentava flâmula que sequer era de casa. Qualquer boleiro de várzea sabe que o meio de campo é o trono soberano da bola. É ali que, reverenciada por todos ao seu redor – jogadores, torcedores, jornalistas, gandulas, árbitros, paramédicos, câmeras, microfones e fios – a pelota aguarda a estridência do apito para permitir, imperante, que inicie-se a peleja. Ou então, que se a retome sempre que algum de seus súditos a tenha brindado com a oferenda máxima do futebol: o encontro airoso entre ela e a rede.

Enquanto de um lado o urubu travestiu-se de pavão, buscando a atenção pelo performático, o almirante optou por conduzir sua nau com a tranquilidade de quem respeita os mares que singra e os habitantes dos portos que cruza. Deu as mãos à sua torcida ciente de que a ela lhe cabiam os estandartes e a eles, jogadores,  a missão de honrá-los. E assim o fizeram, do início ao fim, com o equilíbrio de um capitão que mantém a frieza de quem sabe traçar o mapa de seu destino sem abandonar o brinde emotivo nas vitórias obtidas durante o navegar.

Ainda haverá turbulências pela rota da caravela cruzmaltina. E é certo que muita água há de passar por debaixo das pontes que teremos que transpor até atingirmos a terra altiva de onde jamais deveríamos ter caído. Mas a tripulação mostra-se, onda após onda, jogo após jogo, mais comprometida e empenhada em içar velas e devolver à Cruz de Malta sua supremacia de terra e mar.

Em relação ao ano passado, o resultado é o mesmo. Mas há diferenças que permitem esperanças. A solidez da equipe, a determinação do elenco, a firmeza da comissão técnica apontam, pela primeira vez, para um respeito que ainda surge rascunhado lá pelo fim do túnel. Mas que não se apresenta pela virulência das bravatas e sim pela postura segura do time, pelos dribles desconcertantes e pelos gols inspirados que inflige aos adversários.

Tentos que fazem tremer as arquibancadas e agitar as bandeiras numa alegria tresloucada. Fincando, metaforicamente, o escudo vascaíno por onde quer que passe. Como a ensinar a seu derrotado oponente, freguês fiel da casa, que para essa imensa torcida bem feliz, não há território que não possa ser nosso. Do Norte ao Sul deste país.

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