A dúvida: um conto cruzmaltino

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Em recente entrevista ao Globo, Eurico demonstrou bom senso. Será?

Vasconcelos é sujeito boa-praça. Gente do povo como se diz por aí. Embora sua veia popular em nada o impedisse de atingir a grandeza dos grandes conquistadores. Veio da década de 20 do século passado, superando preconceitos, enfrentando caras feias e narizes tortos e, fruto de seu suor e trabalho, pode-se dizer que venceu na vida. Ante às críticas de sua linhagem vulgar, reforçou seu orgulho pela sua ascendência. Quando questionaram sua honra pela falta de um lar, construiu sua casa pelas suas próprias mãos, sem socorro alheio, sem arrimo de outrem.

Nas décadas de 40 e 50 fez fama internacional. Seu ímpeto expresso levou-o para além das fronteiras nacionais. Nas décadas de 70 e 80 impunha robusto respeito diante de seus pares Brasil afora. Nos 10 anos seguintes, atingiu seu auge. Seu nome ecoava pelos quatro cantos do mundo e sua fama atingia os mais diversos rincões do planeta. Acostumara-se à glória, ao triunfo, à opulência. E, do alto de seu êxito, inesperadamente passou a contrariar sua trajetória. Transferiu a superioridade por soberba. A fidalguia virou empáfia. A confiança deu lugar à presunção.

Quando começou a considerar-se mais do que os outros, sem notar, subtraiu-se. Foi mirrando em suas aquisições e, pouco a pouco, perdia o que havia construído. Deu-se então a inevitável queda. Lágrimas, desespero, um olhar para a marquise de casa e o pensamento lépido de atirar-se de lá. Foi acolhido.”Isso vai passar” ouvia. “Você vai aprender com tudo isso”. Acalmou-se.

Tentou colocar as coisas em ordem. Longe dos faustos tempos de outrora, reencontrou-se novamente com aqueles que verdadeiramente o amavam. E que jamais o abandonaram. Pouco a pouco, passo a passo, Vasconcelos parecia reerguer-se. Não frequentava mais os lugares ostensivos de antes. O respeito alheio ainda rarefeito, mas dava indícios de que o vitorioso estava de volta. Ainda trôpego pelo baque, fez seu nome ressoar por todo o território nacional. Voltou a ver-se pelas Américas. E tudo parecia reajustar-se.

Ledo engano. Desarranjou-se outra vez. Transmitiu uma imagem menos sólida do que sua realidade poderia sustentar. E viu, de maneira mais breve, as recentes construções esvaírem-se, qual castelo de areia. Novo tombo não tardou.

Entre o pranto, ainda assim, não faltaram-lhe mãos amigas. Na escuridão da caída, reviu rostos amargurados de quem fazia de tudo para vê-lo novamente de pé. Foi então que Vasconcelos teve uma ideia que lhe pareceu brilhante. Cansado e impaciente para reerguer seu passado notável pelo custoso labor, acreditou que seria capaz de resgatar sua reverência justamente pelas atitudes que causaram sua derrocada. O pedantismo, a ufania e a embófia foram as armas escolhidas para recuperar a altivez perdida. Celebrava pequenos sucessos ao nível de feitos colossais. Afiançava-se além do que poderia dar conta. E bravateava com uma jactância para a qual não detinha mais lastro.

A queda bateu-lhe a porta novamente. Sob as análise impiedosas de quem anteviu um tropeço que já se desenhava há tempos. Verdade que encontrou, de novo, braços apaixonados. Inclusive aqueles que ele mesmo, em sua vaidade, despedira em outros tempos. A desconfiança, porém, é legado inevitável dos cambaleantes caminhos que traçou recentemente. E auxiliado por muitos dos quais debochou, Vasconcelos insiste em alternar-se ora na fanfarronice injustificável, ora na humildade imperativa.

Há aqueles que ainda inflamam a vaidade de Vasconcelos, sugerindo-lhe que ostente um poder e um status que, hoje, não existem senão nas lembranças que seu nome ainda evoca. Não sabemos precisar em quantos são. Dizem, porém, que muitos ainda o animam a reencontrar-se com sua origem e, mirando seu itinerário pretérito, reedificar sua grandeza através do instrumento que sempre endossou sua magnitude, qual seja o trabalho. A labuta séria, o lavor sincero, a faina planejada, capazes de assegurar, de maneira nativa e genuína, o regresso da deferência e da veneração as quais ainda pode fazer jus.

Se a sensatez atual de suas últimas palavras substituíram as siberianas ideias de uma gélida imodéstia, só o tempo dirá. Há apenas um caminho para voltar ao esplendor, que mais se alonga quanto mais demora-se.

Certo mesmo é que aqui estaremos, querido, a te apoiar. Até o fim que, esperamos, jamais virá.

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