Chega de esperar

vascaínos

Onde estão os grandes vascaínos? [Foto: Alex Carvalho, via VisualHunt.com / CC BY-SA]

Eu sou do tipo de torcedor que, em média, falo sobre Vasco uma significativa parcela do meu dia. Se não penso no clube as 24 horas, creio que chego bem perto em noites que a mente resolve trazer o Gigante da Colina em sonhos do nosso passado glorioso. 

Faço parte de grupos de WhatsApp, do Facebook, debato via Twitter, escrevo neste site, tento rascunhar pelo Velho Cronista, vez por outra me convidam para um debate aqui, um programa ali e, bem, quando vejo lá estou eu discutindo, tergiversando, lendo, ouvindo, comentando, consumindo, imaginando, reclamando, vivendo Vasco.

Nessa agenda, lido com os mais variados tipos de torcedor. Entre amigos, colegas e desconhecidos, me habituei às mais diversas correntes políticas e apolíticas sobre o Cruzmaltino. Uns mais eufóricos. Outros descrentes. Segue o jogo. Tento manter o respeito (de verdade) na conversa e bola pra frente.

Contudo, há um aspecto invariável no vascaíno em geral. Não é fenômeno exclusivo nosso. Acho que é do brasileiro. Mas nosso lado lusitano reforçou.

Trata-se da nossa vocação para a espera de um Messias. Desde pequeno, ouço meu avô comentar sobre Cyro Aranha, o grande vascaíno que montou o Expresso da Vitória. O grifo no adjetivo e suas posteriores repetições são propositados, leitor. Porque, ao longo da crônica, o termo servirá para qualificar nomes que personificassem a salvação do clube.

Ainda na infância, parentes mais velhos falavam em Agathyrno, falecido recentemente. Fosse para exaltá-lo como o “Presidente do 1° Brasileiro” ou para fazer um gaiato trocadilho com seu nome, que colocava em dúvida a lisura de sua gestão, foi mais um a ficar na posteridade como grande vascaíno.

Depois, foi a vez de Antonio Soares Calçada, o mais vitorioso presidente. Fase que vivi mais de perto, a ponto de eu mesmo deferir a ele o posto de grande. A contrapartida de seus mandatos com tantas vitórias, porém, foi a criação de uma figura controversa e discutível que se autoproclama grande, sem ligar a mínima para os que pensam seus defensores e seus opositores. Hoje no poder, após oito anos de gestão pra lá de duvidosa, Eurico Miranda retornou exatamente por ser o nome que prometia um oceano de conquistas para o Vasco, embora tenha afogado a nau no rebaixamento.

Vulto famoso no clube desde a década de 70, Eurico saiu do poder justo quando uma outra personalidade encarnou o papel de salvador da pátria. Maior artilheiro do clube, líder de gols nos campeonatos brasileiros, ídolo em campo, Roberto Dinamite vestiu a camisa do redentor Cruzmaltino e, entre embargos e ações, sentou-se à Presidência asseverando novos tempos e uma “fila de investidores” à porta. O final você já sabe.

E cá estamos hoje, novamente, divididos. De um lado, aqueles que acreditam ainda (sabe-se lá como) que Eurico é esse ser enviado que irá novamente nos alçar a um posto que ele jamais no colocou. Ao menos não nas condições das quais ele se arvora ter feito.

Do outro, o resto que fica a espera de um novo nome, um rosto ilibado, que traga em seu semblante o fervor de um grande expoente, a encaminhar a caravela ao reino do paraíso das taças nos mares tranquilos da soberania.

Essa pessoa existe?

Não.

Já passou da hora de esperarmos por esse “moisés lusíada” e buscarmos alternativas mais reais e factíveis de resgatar o Vasco da Gama à sua posição altaneira.

Muitos clubes já perceberam isso e, sem retirar de seus presidentes a natural amplitude que o cargo evoca, reuniram profissionais técnicos ao seu redor que, em cargos estratégicos, são remunerados e cobrados pelos resultados que se refletem em campo, no número de sócio-torcedores, na expansão da marca além de suas divisas, na reforma e valorização de seu patrimônio, na formação de jogadores, enfim, trabalho que menos se preocupa com a identidade de quem o realiza e mais com os frutos que o clube virá a colher.

Logicamente, como todo grupo que se aventura (o verbo não foi escolhido por acaso) a dirigir um clube será necessário contar com um líder capaz de representar este grupo de trabalho, disposto à façanha de reerguer um gigante surrado por década e meia. O que não dispensa o vascaíno que se crê verdadeiramente grande da obrigação de abandonar essa postura sebastianista e enxergar que, com um estatuto feudal como o nosso, uma andorinha só não faz verão. Demanda preparo e gente imbuída do desejo de fazer diferente para, enfim, fazer a diferença.

Convém afastar o conforto da crítica feita via internet e arregaçar as mangas para descobrir que há pessoas dispostas a dar um rumo diferente à Cruz de Malta. Recuperar o tempo perdido e compreender que, se outrora serviram os senhores de camisas suadas, batendo às mesas aos berros, o futebol de hoje exige postura serena na fala e assertiva nas atitudes.

É hora do vascaíno que se jacta como grande aceitar que não dá para mais terceirizar o trabalho. Se há alguém que vai remir esse escudo não é “ele”. É você. Sou eu. Somos nós. Envolvendo-nos mais com o extra-campo, cobrando além dos jogadores, técnico e assistentes.

Para isso não é necessário pedir benção a ninguém. Muito menos associar-se nos labirintos burocráticos de secretarias.. Basta assumir sua função de torcedor verdadeiro, buscar a informação além da mídia tradicional, procurar entender nosso regimento, conhecer aqueles que estão lá dentro decidindo nosso futuro e, quem sabe, oferecer-se para, de fato, fazer algo em prol do clube. Assim como críticos, trabalho não falta. Que não falte também o seu amor pelo Vasco.

“Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola.”
– Nelson Rodrigues

 

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7 pensamentos sobre “Chega de esperar

  1. Analisando a situação, acho que a coisa não é tão simples quanto parece. Senão vejamos, até onde eu sei, no momento atual não há nenhuma forma de tirar o euvírus do poder de acordo com a porcaria do nosso Estatuto. Então, pensamos em alterá-lo.. como faríamos isso se a oposição é uma minoria no conselho?!
    Vamos então pensar no futuro, nas próximas eleições, e ai a situação fica mais tenebrosa. Ao que tudo indica, para vc conseguir se associar e votar vai custar bem caro, ou seja, a massa de torcedores não vai se associar, e consequentemente, corremos um sério risco da praga do euvírus se reeleger ou eleger o filho!!!
    Bem é esse meu pensamento..

    • Bom, é tudo análise opinativa, por óbvio. Mas, vamos lá: eu concordo que não é simples. Nada simples. Vimos agora o presidente colocar um jogo contra o Madureira ao preço de R$ 50, numa clara ação para que não haja torcedores no estádio.

      Pois bem, não temos possibilidade atual de ninguém associar-se. A previsão é de que, para sócios votantes, o valor seja significativamente alto. Então, não prevejo uma associação em massa.

      O caminho, a meu ver, então (como já externei em colunas anteriores) passa por lidar com o atual quadro social, onde há muitos eleitores do próprio Eurico que já não estão tão convictos nele como antes. É óbvio que há a possibilidade de fraudes. Por isso, tão necessário à oposição fazer de tudo para ter acesso à lista de sócios e acompanhá-la até o pleito.

      Mas e o torcedor médio, sem direito à voto? Pode acompanhar, mais de perto, o que faz a oposição. Pode entender melhor nosso estatuto, dialogar com as pessoas que se opõe e lá dentro estao e entender se há algo que possa ser feito. Um advogado, por exemplo, pode analisar brechas jurídicas. Um profissional de informática bolar algo para as mídias sociais. Um taxista oferecer seu táxi como mídia. E tantas outras possibilidades que são necessárias e que, em alguma instância, pode ser feita por todos.

      O objetivo do texto foi mexer com o ego do torcedor -é nisso logrou êxito – embora em momento algum tivesse a intenção de tornar fácil aquilo que é, em verdade, tarefa hercúlea e trabalho de formiguinha mesmo. Mas a intenção é salientar um ponto nevrálgico: não dá mais pra esperar um “anti-Eurico salvador” parados. A quem houver sincero desejo de mudança, é inteirar-se e buscar fazer algo. A mudança não vira de um novo messias. Mas de mim, de você, que estamos aqui dedicando um tempo a discutir o Vasco. Há muito trabalho. Há muita gente dizendo que deseja mudanças. É a hora de juntar a fome e a vontade de comer.

      Abraços vascaínos

      • É Freud.. eu entendo seu ponto.. talvez não veja com tanto otimismo atualmente, mas concordo que cada um deve tentar fazer o possível para ajudar. Eu já contava em ajudar me associando para votar, mas com essa mudança não poderei por motivos financeiros.. então, fico de mãos atadas.

  2. Caro Pseudônimo do Autor: seus textos são muito bem escritos, sintática, semântica e pragmaticamente. Entretanto acredito que encarar a burocracia da associação como um complexo ônus para ajudar o Vasco, nada mais é do que uma forma de niilismo, estoicismo. Vascaíno de Verdade (com “V” maiúsculo), que disponha de 40 mangos por mês para se associar, DEVE fazê-lo; sem prejuízo de reclamar, cobrar, comparecer, comprar pau-per-view etc. Muitos vascaínos não dispõem de tal montante, e seu amor e torcida bastarão. Mas se tomares o total de menos de 20 mil sócios (com apenas metade deles pagando pois o resto é remido), perante os mais de dez milhões de vascaínos, verás que há muito mais que 0,001% de torcedores que podem ser sócios. Não endosse os pão-duros. Vamos conclamar os sócios a fazê-lo, e, se tiverem algum empecilho, que insistam.

    • E longe de mim, no niilismo que você enxergou no meu texto, deixar de convocar a quem possa associar-se. Esse é o caminho mais óbvio, embora não tão simples pelos nossos gestores, de contribuir. Mas registre-se, não é o único. A massa Vascaina, ainda que não sócia, contribui na influência e há maneiras e maneiras de contribuir. Há pessoas fazendo e trabalho não falta. Que cada um faça o máximo que possa.

      Obrigado pela leitura e elogios. Abraços vascaínos.

      PS: Conforme explica o blog, Freud Ironico é o alter ego virtual do publicitário Raphael Santos. Personagem surgido espontaneamente pelo estilo do Twitter e que jamais servirá de fachada ou esconderijo para mim. Como autor, embora curta muito o personagem, tenho nome, cara e, se necessário, contato disponível a quem solicitar.

  3. Olá FREUD, boa tarde …
    cara, nessa você viajou feio viu, como nós torcedores vamos cobrar alguma coisa? de que forma? o máximo que 1 (um) torcedor pode fazer é reclamar, e isso vejo um punhado fazendo isso durantes esses quinze anos, o que deveria acontecer é, uma MOBILIZAÇÃO de torcedores, Blogueiros que tem a mídia nas mãos e pode disseminar uma ideia, juntamente com opositores que já estão no clube hoje, e CRIAR um grande grupo de torcedores, que conectados e com OBJETIVOS sinônimo busquem uma saída plausível para nosso clube, isso é uma panela de pressão, tem que começar a ferver debaixo para cima, agora eu ficar brigando sozinho, ninguém vai me ouvir.

    • Ué mas se até mesmo você já tem a receita do que fazer, como escreveu, só resta fazer. O que o clube não suporta mais é a torcida esperar que alguém faça. Abraços vascaínos.

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