O benefício da dúvida

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Rubens Lopes, Presidente da FERJ, pronuncia-se em novo e inacreditável Arbitral da Federação fluminense (foto: Agência FERJ)

 

Confesso que considero curioso que o clubismo seja tão atuante na análise que as pessoas fazem do futebol. Como para mim é diferente, viro peixe fora d’água e, por isso, um observador mais atento do que se passa dentro do aquário.

Via de regra, eu sou daquele tipo que pode ser facilmente definido por “vascaíno doente”. Explodo de assustar quem me rodeia em momento de gols. Digo palavrões cabeludos na frente de minha filha mais nova de maneira despudorada quando a arbitragem nos prejudica. Debato futebol na arquibancada com o desconhecido ao lado como se fôssemos íntimos.

Apesar disso tudo, fora do calor do jogo, à margem da pressão da peleja, tenho poucos problemas em buscar um olhar mais isento na formação de minha opinião. Grife o leitor, por gentileza, o verbo buscar da oração anterior. Porque faz-se necessário ressaltar que tal ato é uma pretensão, quiçá utópica, em vista da dificuldade de tirar a vascainidade do prisma pelo qual vejo o mundo. E ainda assim, não me falta vontade, tampouco coragem, para seguir rumo à tentativa de perceber o mundo de maneira mais imparcial e, quem sabe, mais justa.

Talvez por isso, soe-me tão estranha a tentativa que vejo de pobres vascaínos equiparando péssimas gestões a que estamos sujeitos há, pelo menos, década e meia a de nossos rivais mais próximos. Pobres sofredores nas mãos de tantos que vilipendiam o Vasco, acabam parecendo o sujeito que vive um casamento infernal à vista de todos, mas que vasculha defeitos nos casais vizinhos, que, longe da perfeição, mantem relacionamentos com momentos muitos mais felizes que os dele.

Eu não advogo em causa de ninguém, até porque não me arvoro de profissão que não é minha. Considero a atmosfera do futebol um lugar de ar muito mais poluído do que as TV’s em altíssima definição conseguem transmitir. E já passei da idade de acreditar na dicotomia “mocinho vs. bandido”. Mas não é preciso ser menos vascaíno para perceber que Flamengo e Fluminense contam, hoje, com gestões anos-luz à frente da nossa.

Retirem, se possível fosse, todo o beneplácito que a imprensa oferece ao nosso rival rubronegro. Noves fora todos os sorrisos entremeados nos comentários dos analistas esportivos sobre o clube da Gávea. A despeito dos textos enamorados que a imprensa esportiva flerta, dia após dia, com o urubu. Ainda assim, eles terão evoluído em questões importantes, como a implementação de uma cláusula de responsabilidade financeira a seus dirigentes, a redução de suas dívida ou contratações, no mínimo, muito mais vultuosas que as nossas.

O Fluminense, dado como carta fora do baralho após a saída da Unimed, cujo presidente fazia questão política de causar confusão entre patrocinadora e clube, também reduz suas dívidas, projeta patrocínios maiores que o Vasco e triplicou o que recebe de quem faz seus uniformes num ano em que a campanha de 2° turno do Brasileirão do time conseguiu ser pior que a de seu rival rebaixado, no caso nós.

Francamente, Bandeira de Mello e Peter Siemsen estão longe de serem meus ídolos, seja no campo da dirigência desportiva ou no ramo do empreendedorismo empresarial. Sei bem que as lutas que eles travam contra a malcheirosa FERJ sequer dá-se pelos belos motivos que tentam nos vender, senão por interesses políticos de benefícios dos quais eles mesmos tantos já se locupletaram. Concordamos que ambos não são lá flor que se cheire.

Porém, seja lá como se avalie a gestão que eles promovem em seus clubes, convém registrar que eles verdadeiramente os gerem. Com metas estipuladas, que podem ou não concretizar-se, é fato, mas com muito menos opacidade que as nossas. Ao contrário do Vasco, com apresentações fantasiosas, que mais confundem do que explicam, e naquela velha toada de que a Cruz de Malta é de posse familiar e não de tantos milhões que sofrem ao ver seu primeiro amigo afligir-se a caminho de mais uma série B.

Talvez seja eu o errado. Pode ser que o certo fosse aprender a engolir os erros dessa diretoria e, ainda assim, defender o Vasco em falsas bravatas de que seguimos sendo os melhores cariocas porque ostentamos a taça do Rubinho. De que somos vanguardistas ao lutar por um campeonato insosso em nome de uma suposta defesa aos times pequenos. De que vale a pena sim impedir descontos aos sócios-torcedores. De que CAPRRES só nós temos. E outros tantos “orgulhos” que hoje, infelizmente, não conseguem fechar essa minha ferida.

Resumindo, sigo longe de achar que a vida de nossos rivais nas mãos de seus dirigentes seja um mar de rosas ou que a glória de suas gestões seja item assegurado. Contudo, sendo muito sincero, como eu preferiria sentir novamente a interrogação sobre o sucesso de um projeto do que ter de conviver com a certeza de um fracasso anunciado. Como me agradaria estar novamente ao lado de quem ousa contrariar à lei retrógrada a perfilar aquele que a evoca por motivos espúrios. Como eu seria mais feliz se pudesse novamente aspirar o agridoce ar do benefício da dúvida acerca do caráter de quem nos comanda a carregar no peito essa infalível convicção do torpor de quem, hoje, fala com muito equívoco e fumaça em nome dos vascaínos.

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10 pensamentos sobre “O benefício da dúvida

  1. Como sempre um Texto ótimo. Vejo a diretoria do VASCO hoje da mesma forma que vejo nossos representantes políticos…com total descrença. Não disponho da quantia para ter direito a voto, por isso só me cabe assistir e discutir. Falar que estamos errados por criticar só porque em alguns momentos essa diretoria acerta é acreditar na velha frase: “ROUBA MAIS FAZ”. Não sejam como os Petistas que seguem idolatrando aqueles que só querem usufruir do poder. Esses idólatras ou são beneficiados de alguma forma ou não conseguem ver um palmo a sua frente.

  2. Ótimo texto, eu também queria ser criança e ter o direito do benefício da dúvida. Fora Eurico, rebaixou o Vasco e rebaixou o clube financeiramente e psicologicamente.

  3. Coisa estranha. O articulista se diz vascaíno roxo e acha que nada que está sendo feito pelos atuais dirigentes do Vasco tem sentido ou merece consideração. Imagino que se trate de um participante da Administração MUV/Dinamite/Olavo e, por isso, tenha se desligado de São Januário e das outras sedes do Vasco e ignore os 61 títulos que o Vasco conquistou no ano de 2015, posto que não se trate de um simples clube de futebol. Estranhos os elogios que faça à dupla flaxflu, que esperava a completa destruição do clube Vasco da Gama e se mostrara revoltada com a vitória do Presidente Eurico, que logo começou na recuperação do clube. Tanto que essa dupla mencionada, quando percebeu que o Vasco poderia sagrar-se campeão de 2015, começou a desmerecer o campeonato e a colocar seus atletas para agredirem o Vasco e o próprio campeonato, além da Federação. Até o nosso jogador Rodrigo andou dando respostas a certos jogadores e certos jornalista adversários. Seja como, for, desejo que este senhor continue espantado com o Vasco e admirando os nossos adversários, que com ódio, querem esvaziar o campeonato carioca, para não assistirem o sucesso do Vasco.

    • Muito bom o texto.

      Otacio de Andrade, é óbvio que não acho estranho, o que está sendo feito, trata-se apenas de OBRIGATORIEDADE ou perante a Lei, seja ela regulatória ou simplesmente a de um Síndico. Não se pode exagerar , só porque a administração anterior não fez o mínimo, devemos comemorar o mínimo como um título. Comparar o péssimo com o ruim é apenas uma das partes do apequenamento.

      Eu também estou espantado com o terceiro rebaixamento em 7 anos, você não está não Otacio de Andrade?

    • Falou tudo!
      Não sou favorável a Eurico ou Roberto, mas questionar o que está sendo feito atualmente no Vasco… fala sério…
      Quanto à duplinha fraxfru, pq em 2014 não montaram liga ou foram contra o carioca?

    • Ah tá!
      o sr Otacio deve estar se baseando em estatísticas. Kkk. 3 em 7. Atual diretoria são 2 pra 2. Rebaixados em 2008 e 2015. Os dois ultimos brasileiros série A disputados eles foram convidados a ir pra B. Kkkk
      Qualquer Otacio perceberia que a situação de nossos concorrentes é bem melhor que a nossa.
      Deve ser o nível do baseado. Euriquete!

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