Porque nada acaba com o Vasco

Era o cair da tarde. Mas o horário de verão não enganava o céu, que mantinha o sol forte e a sensação de que a noite demoraria a chegar tal qual criança sonolenta se atrasa em acordar. 

Levava meu filho, nove anos, para sua apresentação escolar de final de ano. Protagonista, seu papel era de um avô que rememorava o passado celebrando espaços cariocas pelos 450 anos da cidade.

Avô! Justo um papel que, mesmo saindo de cena, jamais me abandonou. Eu devia ter percebido. Não era acaso. Vinha emoção por aí.

No carro, à caminho da escola, ensaiávamos as falas dele e, ironias da vida, passamos em frente ao Maracanã justo no momento em que seu texto falava sobre o estádio. Ele comentou a coincidência e passei-lhe uma informação que ele desconhecia: o primeiro clube campeão no estádio Mario Filho era o dele, o Vasco. Ele maravilhou-se. Pela semana que vivemos, qualquer notícia boa, ainda que velha, valia a pena.

Chegamos. Ele foi para a coxia. Eu para a plateia. Câmera a postos, começa a peça. Ele, junto ao amigo que interpretava o neto, falava sobre o carnaval do passado, sobre a Lapa, a Lagoa, os carros antigos. Entre os diálogo, outros alunos dançavam caracterizados. De repente, sutilmente, chegou a hora de falar do Maracanã. O texto lhe indicava que falasse do jogo de inauguração, entre Brasil e México. Mas, improvisadamente, ele foi além. Fugiu ao script e acrescentou, em um caco, a informação que recebera há pouco:

Além disso, meu neto. O primeiro clube campeão de um torneio no Maracanã foi o Vasco da Gama!

A plateia veio abaixo. Os vascaínos celebraram feito gol de Edmundo em cima do Flamengo. Os adversário, atônitos, riam nervosos e esboçavam timidamente os nomes de seus times. A música “O campeão”, de Neguinho da Beija-Flor (você lembra, “domingo, eu vou ao…”) tomou conta do auditório que virara uma arquibancada gostosa.

Com um detalhe: no refrão, os pais vascaínos gritávamos emocionados o nome do clube. Não só ali, naquele inocente espetáculo. De alguma forma, berrávamos ante à sala da presidência, ante à fumaça pestilenta, ante aos desmandos que levaram nosso clube, novamente, à uma imerecida queda. Rugíamos, como a dizer que façam o que que fizerem, errem o quanto errarem, arroguem-se o quanto arrogarem-se, não adianta, o Vasco nunca vai acabar.

Eu ia além. Chorava pela atitude de meu menino.

Porque se o Vasco é São Januário e sua beleza histórica, não se limita a isso. Se o Vasco é sua camisa imponente e vencedora, não se circunscreve a ela. O Vasco é maior que Eurico, que Dinamite, que seus ídolos, que seus opositores, que seus títulos, que seus troféus, que sua história.

Ser Vasco é adotar uma filosofia de vida. Uma forma de enxergar o mundo e de saber que, qual seja o revés, nós passaremos por eles.

Aos nove anos, eu via Sorato calar o Morumbi depois de um bicampeonato carioca em que Cocada tirou o doce da boca rubronegra. Meu filho vê seu time ser motivo de chacota diante de adversários que nunca terão, passe o tempo que for, a nossa glória. E ainda assim, na frente de uma multidão, ele escolheu escapar à obra para registrar sua vascainidade.

Sem bravatas, sem microfones, sem televisão, ele assinalou, da forma mais simples, pura e sincera que o charuto apaga, mas o Vasco continua.

Para sempre.

E nós estaremos aqui para assegurar isso.

Você, Vasco, merece.

guigo_vo-vascaino

Após a apresentação, encontramos, por acaso, um avô de verdade e, verdadeiramente, vascaíno. Registrei, por óbvio.

 

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6 pensamentos sobre “Porque nada acaba com o Vasco

  1. Parabéns ! Á você por ter mostrado ao seu filho os valores e quão é importante a história e ao seu menino, por ter aprendido, por mesmo nesses momentos difíceis, ter orgulho e ter feito essa sacada maravilhosa e oportuna .
    Também tenho filhas e as minhas são igualmente vascaínas e me orgulham também, viram poucas glórias com o Vasco de hoje e de algum tempo, mas ainda verão inúmeras glórias com o Vasco de amanhã, assim como seu menino e muitos de nós veremos . O Vasco é muito maior que todos esses que tentam diminuí-lo e todos nós voltaremos a exaltar essa grandeza . Saudações e boas festas á você, famíla e todos os vascaínos de coração .

  2. Sem palavras!! Meu agradecimento por compartilhar com outros vascaínos a emoção do momento. Saiba que textos como o seu e, principalmente, atitudes como a do seu garoto, nos dão forças e servem de exemplo para continuarmos amando e levantando a bandeira deste clube tão maltratado pelos que se dispõe a dirigí-lo.

  3. Cara: acho que com o vascaíno nada acaba; mas estão conseguindo sim acabar com o Vasco. A continuar essa toada seremos reduzidos e número…

  4. Muito bacana. Parabéns ao pequeno Vascaíno!

    Me orgulho em dizer que o meu filho de 05 anos já carrega a Cruz de Mal, volta e meia também me emociono com suas atitudes.

    Me vem a cabeça a velha frase:
    “Enquanto Houver um Coração Infantil o Vasco Será Imortal.”

    /+/

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