Vasco, minha (amada) cruz

Texto adaptado. Originalmente publicado no extinto site “A Cruz de Malta” em dezembro de 2013.
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Foto: Agência O Globo

“Se for para a Segunda Divisão, sou Vasco. Se for para a Terceira, sou Vasco. Se o Vasco acabar, ainda sou Vasco” (Aldir Blanc)
Minha primeira lembrança de futebol remonta à 1986. Eu contava seis anos de idade e fora sugerido a escolher um time para torcer. Em minha família, havia representante dos quatro principais clubes cariocas. E no dia 10 de agosto, eu me sentei ao lado do meu avô, para assistir à final do Carioca daquele ano, quando os campeonatos estaduais tinham uma importância que os mais jovens de hoje não conseguirão compreender.

O jogo era Vasco (time de meu avô) contra Flamengo (que contava com a simpatia da minha mãe). E eu não fazia a menor ideia da rivalidade que envolvia aquelas cores. De forma tácita, ficou pré-acordado que, no dia seguinte, minha mãe compraria para mim a camisa do time vencedor. Ou seja, aqueles jogadores não sabiam, mas além da taça, disputavam a minha torcida, a minha paixão. Jogavam o meu destino e selariam, àquela época, toda uma vida de amizades, assuntos, lado de sentar no estádio, tweets, retweets, posts, camisas e inúmeros detalhes da minha trajetória.
A tensão incomum de meu sereno avô me despertava curiosidade. Aquele evento não deveria ser normal, eu pensava. Havia angústia nas disputas. Um nome insistentemente repetido por ele marcou-me profundamente: Geovani era O cara. Frases como “Que jogador. Que jeito de tocar a bola” davam forma ao nascimento de um primeiro ídolo. E a certeza profética sobre um jovem garoto de cabelos crespos crescidos para cima (“Esse Romário vai ser muito bom, hein?”) também me fizeram desconfiar que aquele esporte tinha algo de magia.
Mas Bebeto começou a impedir a comemoração de meu avô. E ao final da partida, coube à Acácio a honra de ser o primeiro jogador a me despertar raiva, em uma displicente queda no chute de Julio Cesar, que permitiu à bola encontrar-se mais uma vez com as redes. A despeito do nervosismo, meu avô só explodiu uma vez, quando foi anunciada a substituição de Geovani, o príncipe, pelo plebeu Claudinho. A grosso modo, um Marcinho sem passagem pelo futebol europeu. Disse-me o velho: “Acabou. Impossível. Vai ser Flamengo. O Vasco é essa coisa aí. Esquece.”
Mas era impossível esquecer. Essa “coisa” já havia me tomado. E, para orgulho de meu vô, foi das poucas vezes em que o desobedeci. Ao final da partida, disse resoluto à minha mãe: “Compra a do Vasco, tá?”. E no dia seguinte, lá fui eu pra escola dentro de uma camisa do time vice-campeão.
Claro que vieram inúmeras alegrias. Incontáveis conquistas. Viradas históricas. Demos o troco nos anos seguintes. Mas foi dessa forma que aprendi a amar o Club de Regatas Vasco da Gama. E convenhamos, não é qualquer amor que surge após uma derrota. Tem que ser um sentimento muito forte para brotar após a perda do título para o maior rival. Talvez por isso, o que faça tão mal a tantos torcedores vascaínos, em mim, fortaleça o amor à Cruz de Malta. Sem saber, meu sentimento criou uma imunidade a derrotas e, já ali, aprendeu que, haja o que houver, ele não para.
A história me veio à mente -novamente- quando de nossa terceira queda da ~elite~ do futebol brasileiro. A dor, a raiva, a tristeza. Todas essas sensações (e outras) revisitaram-me no apático jogo de Curitiba. Mas, como sempre, elas vão embora. E o que fica, ao final, o que não me abandona, é sempre o mesmo velho, surrado e combalido amor por esse time de história, de superação, de transformação. Esse amor despretensioso, nascido de um tombo, que não cobra nada do clube. Não sei se o Vasco me ama. E pouco importa. O amor é meu. Parte daqui para lá, em sentido único, sem passagem de volta. Promessas de não assistir ou não ir ao jogos são tolas e vãs. Nunca as cumpro. Jogadores ruins, péssimos, chegam e nada muda. Patrocinadores vem e vão e meu peito segue o mesmo. Porque o amor é à camisa. Seja ela vestida por Roberto ou Romário. Por Andrezinho ou Edmundo. Por Nenê ou Juninho. No vice ou no vigésimo.
Meu amor não tem tabelas, não tem séries ou divisões. Sentimento intransitivo, que já era antes mesmo de ser. Por isso, vamos em frente. Se há algo que meu velho avô ensinou-me foi: “Não importa o quanto você sinta o golpe. Levante-se logo.” Eu já estou de pé,Vasco. E estou pronto para, mais uma vez, te ajudar a levantar-se novamente. Que venha 2016.
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6 pensamentos sobre “Vasco, minha (amada) cruz

  1. Eurico? Ele pode ser fanfa mais esta aos poucos colocando as contas em dia e finalmente mesmo rebaixado vi meu time jogar.
    Roberto com todas as boas intenções e tendo sido um idolo se demonstrou péssimo administrador.
    Tirem pela sede, o futsal, a piscina, enfim todas as dependencias.
    Boa sorte a todos nós. Em 2016 eu estarei la.
    VASCO.

  2. Legal o seu texto. Mas sejamos realistas: enquanto não tirarmos o Eurico e sua corja, o Vasco continuará a ser o que vimos em 2015. Quiçá pior.

    A paciência acabou. Que a viagem sem volta à Sibéria aconteça por bem, ou por mal. Aliás, como estamos num momento em que impeachment está na moda… nada mais sugestivo!

    • Simples assim. Com o FANFARRÃO INCOMPETENTE e sua patota casaquilda no comando, o único “caminho” que trilharemos será, cada vez mais, PARA BAIXO.

  3. Perfeito comentário. Num momento como esse é bom ler palavras que levantem a moral e renovem o orgulho de ser vascaíno. Na alegria ou na tristeza, eu nunca vou te abandonar!

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