O abismo vascaíno

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Foto: Gazeta Press

Era domingo, 4 de outubro, e leváramos o empate do Avaí na Ressacada, em um jogo que trouxe certo sabor de derrota por conta da situação. Naquela tarde, escrevi esse tweet:

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Não era uma previsão, nem se pretendia uma profecia. Era apenas a constatação de que, a despeito do que aquele “novo” time estava a produzir (com três vitórias e dois empates nos últimos cinco jogos de então), o que fora feito antes, na era Roth-pós-Doriva, ainda iria pesar demais dali pra frente.

Havia o ânimo injetado pelas contratações que passavam a permitir uma esperança que jazia falecida. A batalha, porém, ainda seria duríssima, como bem vemos hoje. E àquela altura, já era possível entrever que chegar ao último jogo dependendo só de seus próprios esforços já deveria ser considerado um milagre, por si só.

Por vias tortuosas e sofridas, chegamos à meia condição do que pensei. Temos chances reais de sair da zona infernal da tabela justamente na única rodada em que a necessidade é compulsória, a última. Mas não bastará ao time somente sua labuta. Temos de nos sujeitar à comiseração alheia, carecer da condolência de outrem.

Ainda assim, independente do que ocorra no Couto Pereira, registro neste texto meus aplausos sinceros a esse time. Foram guerreiros, intrépidos pelejadores, destemidos combatentes que souberam, cada um a seu modo, honrar, com suor e vontade, a camisa vascaína. Haja o que houver daqui a uma semana – porque o imponderável do acaso é inerente ao futebol – eles já merecem as loas de quem se comprometeu com árdua incumbência e a executaram, senão com a primazia do talento, com a brutal beleza do afinco.

Contudo, as congratulações são circunscritas só, e tão somente, a esse elenco e sua comissão técnica. Não há a mais ínfima gota de felicitação que deva-se esvair desse grupo e respingar, distraída, nos dirigentes. A eles, todas as críticas mais tenazes, os julgamentos mais severos, as avaliações mais implacáveis. Nem o atenuador pensamento de que eles perceberam a tempo os problemas do time e mobilizaram-se por resolvê-los merecem. Porque tais problemas, óbvios até mesmo aos jogadores, foram criados por eles mesmos. De modo que resolvê-los, se assim a equipe conseguir, não será feito digno de agradecimento, posto que era a mínima obrigação que lhes cabia diante das promessas falsas e vãs de que se utilizaram para retornarem ao cargo que ocupam.

Entre as alegrias e alívios que esse time proporciona com sua entrega, raça e ânsia por elevar a Cruz de Malta ao seu patamar original e a preocupação e apreensão que essa diretoria nos enseja há um abismo que quase chega a criar dois Vascos distintos. Um apaixonante, outro asqueroso. Um verdadeiro, outro espúrio. Um maiúsculo, que tenta exercer seu gigantismo buscando livrar-se da asfixia proporcionada pelo outro, minúsculo, com sua repulsiva fumaça de um charuto maléfico que, tão logo se apague, permitirá ao Cruzmaltino acender o brilho que lhe é peculiar.

O vasco dessa gestão eu abomino. É no outro Vasco, o dos jogadores, que eu acredito. É com ele eu vou.

À Curitiba.

À glória.

À paz.

À reconstrução.

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6 pensamentos sobre “O abismo vascaíno

  1. Perfeito.
    Percebo que não falou “explicitamente” de nós torcedores destes vascos… a contradição em que vivemos… e que mesmo muitos não acreditando… nunca deixamos de sonhar com um milagre e a nosso modo incentivamos o tempo todo este clube que apesar de todos muito nos orgulha.
    Tenho bons pressentimentos. Torça para que eles se concretizem.
    Domingo será decidido o Vasco de jogadores e torcida permanecerá ou o Vasco de sub-dirigentes será rebaixado para uma série B que talvez não seja o limite destes vulgo dirigentes auto proclamados rei sol.

  2. Postura bem diferente de seu colega de coluna. Parabéns pela consciência.

    Que prevaleça o Vasco dos jogadores, que assim seja.

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