Por trás do velho Freud, um menino feliz

o rádio Philco que me apresentou Garotinho, Gilson e Gerson.

O rádio que me apresentou Garotinho, Gilson e Gerson

O ano é de 1988. Junto a meu avô, a televisão exibia o jogo, mas era o rádio-relógio que só funcionava em frequência AM quem ecoava pela sala. Vasco e Flamengo disputavam, mais uma vez, o campeonato carioca, competição importante àquela época. O empate era nosso e eu, sete anos de idade, vivenciava a experiência do coração inquieto à espera dos minutos que, embora poucos, vagavam ao ritmo da eternidade. 

Foi então que a voz de José Carlos Araujo, o Garotinho, enxotou o nervosismo e fez meu peito explodir de alegria com palavras que eu, mal sabia, jamais iria esquecer:

[você pode ouvir a narração, clicando aqui]

Cocada se manda e vai embora. Vai mais, vai mais, vai mais garotinho. Romário pede no comando. Ainda agora Cocada. Deu uma de (…), apontou, atirou, ENTROOOOU. GOOOOOOLÃO, GOLÃO, GOLÃO.
COCADA.
COCADA.
TROCOU DE PERNA.
AGORA É EMPURRADO POR UM MONTE DE JOGADORES DO VASCO.
E QUE GOLÃO AOS QUARENTA E TRÊS E MEIO NO MARACANÃ.
EXPLODE ESSA GALERA.
COCADA.
UM GOLÃO SENSACIONAL.(…) ACERTOU NA MOSCA. E FAZ O GOL DO TÍTULO. O GOL DO BICAMPEONATO.

Corta para o ano de 2015. Seis de novembro. Atendendo a um convite, vou aos estúdios cariocas do SBT para representar o Vasco Expresso como blogueiro convidado em programa esportivo local. Bem recebido pela produtora Nathalia Pereira, sou apresentado a ninguém menos do que José Carlos Araujo, o Garotinho. Acostumado, por força do ofício, a eventuais encontros com pessoas famosas ou de alta posição social, mantenho por fora a naturalidade e o sossego. Por dentro, contudo, o coração gela, acelera o ritmo e leva a mente a uma viagem por tantos e tantos gols celebrados ao som daquela voz que agora me convidava a sentar-se na sala de espera do programa.

Ao lado de um dos maiores narradores do futebol brasileiro

Ao lado de um dos maiores narradores do futebol brasileiro

Já no estúdio, a porta se abre e nele adentra o jornalista Gilson Ricardo que, de imediato, vem apertar minha mão. Eu respondo calmamente, sorriso nos lábios, sem deixar transparecer a emoção que me remete à sequência de anos entre infância e juventude em que eu o escutava, diariamente, comandar o “Panorama Esportivo” na rádio Globo. Ainda impactado, percebo a chegada de Gerson, campeão mundial de 70, o canhotinha-de-ouro que lança um sinal de positivo em minha direção, antes de encaminhar-se para trocar sua camisa. Depois ele ainda passa e dá aquele tapinha carinhoso no meu ombro, sem fazer ideia de que, por dentro daquele homem que ali está para acompanhá-los no programa, há um menino esfuziante revivendo narrações, rememorando jogos históricos, reconstruindo uma história navegada nas ondas de rádios que eles tanto capitanearam.

Debatendo com os integrantes do SBT Esporte Rio

Durante o programa, debatendo com Gilson, Gerson e Garotinho

O programa transcorre tranquilo. Rimos juntos e eles me tratam com uma agradável intimidade, conversando em off nos bastidores, respondendo a perguntas que levo do twitter e comentando com bom humor a minha numerosa paternidade. Quem vê de casa talvez pense que eu ali, tranquilo, sou um deles. Ledo engano.

Para eles, é apenas mais um programa e eu, mais um convidado. Para mim, é um dia único, com uma rara magia de me transportar a inúmeras noites de semana ou tardes de domingo em que eles eram os responsáveis por me trazer o Vasco e definir meu estado de espírito para o restante daquele dia ou daquela semana. São vinte minutos de programa que me remetem a quase trinta anos de uma vida regada a Vasco, futebol, rádio. Ali sou o colunista do blog, sou o tuiteiro, sou o pai dos meus filhos, mas posso resgatar o menino ansioso pela bola que não entra, o neto receoso que agarra a mão segura do avô e que, juntos, comemoram de novo um encontro tão imaginário quanto desejado.

O dia de hoje é desses pequenos enormes prazeres que a vida nos concede quando em vez, como que a nos dizer: “Desista não. Não vê que eu ainda valho a pena? Apesar e acima de tudo.”

Teimosamente, eu não desisto. Fica a dica, Vasco da Gama.

[ Quem quiser ver o programa na íntegra, é só  clicar aqui]

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