Aprendendo a acreditar

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Foto: Galeria de imagens do jogo Vasco 2 x 1 Sport – PE / Site oficial do Vasco da Gama – http://www.vasco.com.br

O relógio se encaminhava para as três da tarde quando eu e meu filho vascaíno, fiel companheiro de estádio, seguíamos a pé pela rua Torres Homem, quase esquina com a rua Duque de Caxias, com destino ao Maracanã. Devidamente fardados com a camisa cruzmaltina somos abordados por um andarilho, possivelmente morador de rua. Maltrapilho, braço direito engessado do ombro até à mão, nos pede ajuda para comprar comida. Dou-lhe poucos trocados, desculpo-me por não poder ajudar mais e, após agradecer-me, ele me traz uma pergunta inesperada:

“- Quantos jogos precisamos vencer para não cair?

Diante do contexto, eu não aguardava tal indagação. Levo segundos para concatenar palavras e ideias e, finalmente, respondo que nos faltavam oito vitórias. Ele respondeu-me que acreditava, questionou-me sobre o adversário daquela tarde e profetizou uma vitória. Nas despedidas, exortou-me a acreditar no time: “Nosso Vascão não cai não.

Seguimos, com as inúmeras preocupações do dia a ocupar o lugar daquela ínfima, mas incômoda, curiosidade. Seria mesmo ele vascaíno? Ou teria visto nossas camisas e forjado o diálogo como agradecimento à doação recebida?

O que aconteceu no jogo é história, já sabida e celebrada por todos os torcedores. Na volta para pegar o carro, contudo, em plena Avenida 28 de Setembro, eu ao celular, passo pelo mesmo senhor, a quem mais cedo brindara com quase insignificante esmola. Ele nos reconhece e, olhar brilhando, nos diz: “Não falei? Faltam só sete agora. Vascão é Vascão. Não vamos cair não!”.

Eu respondo por gestos e quando finalmente desligo, volto a cabeça procurando-o mas não mais o vejo. Lamento tê-lo deixado ir sem dar-lhe mais atenção. Leve remorso por ter posto em dúvida sua vascainidade com base em meu julgamento visual. E logo sob esta camisa, que notificou-se por combater os equivocados conceitos pré-concebidos em razão de etnia ou de posições sociais. Por fim, arrependo-me de não ter desligado o telefone e ter lhe dado um abraço.

Para ele, talvez, mais importante do que o pouco dinheiro ofertado fora o mínimo de atenção recebido. Encontrar alguém para quem ele exista além de suas roupas sujas e de seu aspecto depauperado. Poder mostrar que sua vida, por difícil que seja, não o impede de certas paixões e interesses cotidianos. Nem de estabelecer elos com outras vidas, por mais diferentes que possam parecer.

Nem pude agradecê-lo pela lição que me ensinou sobre respeito, humanidade e diferenças. E por me relembrar, de uma forma tão sutil e profunda que não há, no mundo, outro time que tenha feito desses princípios a base para sua história como o Club de Regatas Vasco da Gama.

Obrigado, companheiro, por ter o Vasco na pele, nos olhos e no coração. Por ter me ajudado a ser um pouquinho mais apaixonado por esse time e, principalmente, porque, graças a você, agora sim, eu escolhi acreditar.

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5 pensamentos sobre “Aprendendo a acreditar

  1. Exatamente pela sua história de liberdade, honestidade, TRANSPARÊNCIA, cidadania, democracia e bons princípios, pela LINDA IMAGEM que o clube construiu (pelo menos, até um dirigente TRUCULENTO sobressair na ASQUEROSA politicagem interna), o Gigante da Colina NÃO DEVERIA ter a diretoria que o DESGOVERNA e alinha com “as forças NEFASTAS” (FFERJ e CBF) que deveria combater.

  2. muito bom mesmo seu texto….sempre que saio com meu filho, ou posto a, ja tradicional foto/vídeo dele com a camisa do VASCO em dia de jogos …. vem um entendido do assunto com a célebre frase …” não faz isso, não faz o menino sofrer, e blá-blá-blá…” …..minha resposta é um mantra: NÃO SOU VASCAÍNO POR CAUSA DO FUTEBOL, É POR PRINCÍPIOS,futebol só é importante dentre as coisas que não tem a menor importância, por isso, nós talvez sejamos o único clube que tenha algo à ensinar para seus filhos-netos-bisnetos…Parabéns pelo texto

  3. Um dos melhores textos que li nestes últimos meses de muito sofrimento vascaíno. Moro em Porto Alegre, vejo que Grêmio e Inter já estão elitizados com suas lindas arenas, e me pergunto o que vai ser do meu Vasco diante deste cenário de modernidade e alto investimento, se vier a cair e ficar sem patrocínio e metade da cota de TV, tão cheio de dívidas quase impagáveis… E este teu encontro com uma pessoa invisível – sim, porque são invisíveis aos nossos egoístas olhos essa realidade diversa das nossas – que em meio a tantos desafios pessoais ainda mantém sua dignidade e paixão… Quiçá seja o Vasco sempre um gigante do futebol, mas que nunca deixe de lembrar-se de sua história de inclusões e corações populares! Afinal, como diz o texto do hino do Rio Grande do Sul “povo que não tem memória, tornar-se escravo”. Tenho enorme orgulho de ser vascaíno, sempre, onde o Vasco estiver!!

  4. Lembre-se que o Vasco nunca foi o time da elite! Sempre foi o time do povo! De todos os lugares, de qualquer casta social ou etnia!

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