Zero que pesa

Foto: site www.vasco.com.brO zero é coisa alguma. Não tem valor próprio. A síntese da nulidade. O esgotamento matemático. Em suma, é o mais absoluto nada. Por isso, talvez, o zero a zero seja o placar menos afeito ao futebol. Ironicamente, é o início de todas as pelejas. Mas ora-se sempre, cada um por seu escudo, para que não seja o score final.

O futebol, orgulhoso como ele só, jamais se submete à matemática. De modo que o zero, quase sempre escassez, nos gramados pode virar plenitude. Como em 1997, quando a cabeçada do palmeirense Oséas aos 44 minutos do segundo tempo foi impedida de virar gol pelas sagradas mãos de Carlos Germano. Números estáticos no placar. Torcida vibrante nas arquibancadas. Mais um título nacional graças, vejam vocês, ao zero do placar.

Ontem, coincidentemente, o Vasco não teve alterações numéricas nos telões do Maraca diante de um intruso Joinville. Convidado por obrigação à festa cruzmaltina, o time catarinense não se fez de rogado em trazer à tona a realidade da Colina. Jogou água na cerveja sem álcool. Tirou os doces das bocas infantis. E deixou claro que, em São Januário, não há o que celebrar. Defendeu com brio o seu zero. E só não aniquilou o nosso porque Martín Silva estava lá para dirimir quaisquer dúvidas levantadas pelos mais ingratos vascaínos.

Afora a camisa cruzmaltina, o zero-a-zero e o estádio, nada do jogo de ontem é comparável àquele de 97. Há um hiato, um abismo, uma dimensão de diferença entre os elencos. O futebol da época tolerava, até pedia, dirigentes ardilosos com regras, capazes de fazer jogar no prélio seguinte atletas expulsos na cancha anterior. O de hoje pede gestores profissionais, não peritos em códigos ou manobras legais, mas especialistas em captar recursos, amealhar investidores, montar equipes, enfim, em respeitar e ampliar a grandeza de uma instituição.

À saída do Maracanã, a caminho da Praça Varnhagem, o zero já me encheu de alegria. Ontem, contudo, diante de uma equipe sem valor próprio, a síntese da nulidade criativa, ele zerou-me as esperanças. Zero pesado. Difícil de carregar e de reerguer a cabeça.

Dizem que ainda há chances. Tomara. Decidi não jogar a toalha. Ao que tudo indica, ainda há muitas lágrimas para secar.

Anúncios

2 pensamentos sobre “Zero que pesa

Concorda, discorda, gostou? Opine você também.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s