À deriva e sob fumaça

A frase que vira, a cada dia mais, uma piada

A frase que vira, a cada dia mais, uma piada

Há quem defenda que o momento não é propício a abordar assuntos referentes ao Casaca, sustentáculo político de Eurico. Que importa agora somente o time e sua latente necessidade de reforços. Discordo. Se não discutirmos a longeva e nefasta política do clube agora, quando ela aponta que o fundo do poço pode ser ainda mais embaixo, não será nos momentos de calmaria e ou euforia, que eu não sei nem mais quando virão, que iremos discutí-la. 

Rumores dão conta da saída de Doriva. Vítima da roda gigante tão característica do futebol brasileiro, o treinador sai, em menos de dois meses, do posto de inédito bicampeão paulista e carioca consecutivo para tornar-se mais um defenestrado comandante que merece morrer abraçado às suas falíveis convicções táticas. Minha avaliação sobre ele? Não sei. Em um alquebrado campeonato estadual, mostrou virtudes. Em nível mais alto e equilibrado, apresentou falhas. Com um elenco extremamente fraco nas mãos, sinceramente não consigo avaliar o trabalho dele de maneira que me pareça justa.

Diferentemente do papel da gestão que dirige o clube. Essa, pelo longo tempo que teve e pelos resultados apresentados, sinto-me deveras confortável para tecer meu juízo de valor acerca de seu trabalho. E minha avaliação é ruim. Muito ruim.

Noves fora o tempo que Eurico esteve à frente da presidência do clube no passado, com times de péssimo nível e participação decisiva no primeiro rebaixamento (embora tente esquivar-se dele como um vampiro foge dos raios de sol), bastariam só os primeiros seis meses da nova (?) gestão para que a avaliação desta fosse péssima.

Há um título, é verdade. Troféu que eu trocaria, sem pestanejar, pela possibilidade de vislumbrar um futuro mais feliz do que a já tradicional disputa para não cair. Fato é que uma breve e descompromissada lembrança do que a diretoria vem fazendo é suficiente para mostrar o quão perdida ela está.

Em 29/12, por exemplo, as manchetes davam conta do ex-rubronegro Marcinho apresentado pelo presidente como “referência técnica” do time, dispensado em 09/06 após rescisão de contrato. É de chamar a atenção quando alguém que gosta de jactar-se por ter “mais tempo de futebol do que eu tenho de vida” enganar-se de maneira tão rápida e profunda sobre a certeza de quem seria uma peça fundamental para o clube.

Outro aspecto defendido por essa gestão é o teto salarial. Segundo notícias, salário máximo de R$ 150 mil para não comprometer as finanças do clube. Seis rodadas sem vitória entretanto podem ter sido suficientes para rever essa política. Recém-contratado, Andrezinho, chega do endinheirado futebol chinês e sob informações de que o Corinthians, que também tentava o jogador, desistiu por conta dos salários altos. Não encontrei dados sobre o salário ou detalhes da negociação. Cabe averiguar e questionar se o teto subiu ou se o desespero baixou.

A possível saída de Doriva é só mais um item da inconsistência em que se transformou o Vasco nos últimos anos. No início de junho, Eurico declarou que: “Basta perder um ou outro jogo que vocês (imprensa) já vem com essa história de demitir treinador. Eu já disse, eu não demito técnico“. A ESPN fez a conta de seus mandatos e, de média, um novo nome no banco a cada 5,7 meses. Convenhamos, não são números que atestem, exatamente, a perenidade dos trabalhos na Colina, né?

Caberia acrescentar as bravatas de que o clube brigaria por título, de que “o respeito voltou” e a louca avaliação de que “atletas de prestígio começam a vislumbrar no Vasco a possibilidade de um lugar seguro para trabalhar” para termos uma noção exata da falta de rumo a que estamos sujeitos.

E mudar isso, acredite, passa por discutir o binômio Eurico-Casaca. Porque, óbvio, você pode querer salvar o time deste campeonato. Atuar como o bombeiro para evitar uma nova queda. Para o quê podem bastar meia dúzia de jogadores, um novo treinador que motive e, quem sabe, uma ou outra mexida nos bastidores. Mas, salvar o clube, resgatar uma história, alçar a Caravela novamente ao seu destino glorioso, enfim, trazer de volta o respeito de maneira verdadeira e sólida é trabalho que não se conquista como um troféu da federação de Rubinho. É preciso, mais do que palavras, de silêncio. E trabalho, muito trabalho. E passa, a meu ver, pelo debate acerca desse modelo autoritário, que esconde no folclore de falas polêmicas decisões que lesam o clube com feridas que seguramente demorarão muito para cicatrizar.

Os inacreditáveis 11 pontos que nos separam na tabela do modesto Chapecoense só refletem um modelo ultrapassado de gerir um clube que nos distancia, a cada dia mais, da grandeza que deveria ser nossa realidade. Olhar só para o time pode ser uma maneira míope de analisar a situação e contribuir, ainda que involuntariamente, para a manutenção dessa política perversa.

Não se trata de sair da zona apenas. É necessário expulsá-la do coração do clube. Ela e sua cortina de fumaça, maliciosamente construída com a ajuda de caros charutos que, dia após dia, asfixiam mais e mais o Vasco da Gama.

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5 pensamentos sobre “À deriva e sob fumaça

  1. Quem torce PELO CLUBE, e não por dirigente FANFARRÃO, RETRÓGRADO, ULTRAPASSADO, INCOMPETENTE (vide 2001 à 2008) e MENTIROSO, sempre soube que o retorno da VERGONHA e do ABISMO, estariam muito mais próximos do que o retorno do “respeito”.
    Não sei o que IRRITA mais. Pior do que as PÉSSIMAS apresentações (desde o RIDÍCULO e ENGANADOR torneiozinho regional de VÁRZEA vencido) de MAIS UM PÉSSIMO ELENCO montado pelo novo/VELHO presidente, só as RIDÍCULAS, PATÉTICAS, sandices postuladas pelos articuladores do “site da terra do nunca”. Mas vamos tentar “compreendê-los”, porque não deve ser nada fácil “trabalhar” procurando um jeito de defender o INDEFENSÁVEL.

  2. Excelente texto Freud!
    Estamos muito mal e as perspectivas não são boas… também como vc, trocaria o título carioca por uma situação melhor.

  3. Parei de ler no participação decisiva no primeiro rebaixamento. Só sendo muito alienado pra acreditar nisso mesmo. Eurico fez uma gestão muito ruim até 2008, mas o rebaixamento vai pra conta do Roberto, que por motivos óbvios não cabe lembrar novamente.

    Além de avaliar a atual gestão somente pelos resultados das 8 rodadas iniciais do Brasileiro. Pensamento tacanho e limitado, de quem deve ter achado a administração do Dinamite brilhante, após o bom 2011 que tivemos. Do torcedor comum eu até entendo se nortear apenas e tão somente pelo péssimo início de Brasileiro, mas vindo de um pretenso formador de opinião é da profundidade de uma poça d’água.

    • Prezado Paulo,

      Pelo seu pensamento eu sugiro que você não deixe de ler apenas esse parágrafo, mas qualquer texto meu. Porque em quaisquer linhas deles estará grifada não uma opinião, mas a certeza de que Eurico tem participação decisiva e direta no primeiro rebaixamento do clube, bem como em tantos prejuízos que a FERJ nos proporcionou nos anos em que o mandatário esteve afastado da presidência da Colina.

      É de uma interpretação muito pobre imaginar que criticar as inumeráveis falhas das gestões comandadas por Miranda equivalha a elogiar ou ser favorável à catastrófica gestão de Dinamite. Lamentável ver um rebanho inteiro de torcedores adotar essa postura, quase que abandonando seu senso crítico para repetir, mecanicamente, as bravatas de seu guia.

      Ademais, não sou formador de opinião e nem tenho pretensão de sê-lo. Se nem pretendo isso com meia filhos, cujas responsabilidades me cabem, quiçá com um monte de torcedor, homens barbados e donos de si. Vá ser feliz com seu líder, celebre a “volta do respeito” e foque suas leituras no Casaca, onde as opiniões estarão mais dentro do que você julga profundo como um oceano de rosas em que vivem os seguidores de Eurico.

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