Preleção

alfredo-vascoAlfredo é minha calopsita. Ela seria uma ave normal, tal e qual tantas outras, não fosse uma característica peculiar. Alfredo é vascaíno.

Essa informação é uma inferência minha, dada a rapidez e capacidade de aprender a assoviar o hino do Vasco quando me propus a ensiná-la.

Mais que aprender, Alfredo pareceu ter gosto em fazê-lo. E assim foi a tal ponto que bastava-lhe perceber que eu chegara em casa para ele entoar a melodia introdutória do hino.

Havia algo de curioso no fato de que nem sempre ele me recebia dessa forma. Ouso afirmar que ele escolhia os momentos mais propícios, dado meu humor, para reforçar minha vascainidade, em acordo com meu estado de espírito.

Assim foi após a final do ano passado, quando jazia em mim uma frustração de 69 centímetros pelo troféu que nos foi garfado. Coração amargurado, abro a porta do lar, e lá me veio a melodia dorida, sem letra, do “vamos-todos-cantar-de-coração-a-cruz-de-malta-é-meu-pendão”. Como uma voz solitária, a reforçar em mim a importância daquele sentimento. Surrado, sofrido, furtado,queixoso, magoado, ferido, mas ainda assim um sentimento. E que, lembrava-me Alfredo, não para. Jamais.

Nesse ano, certo dia, Alfredo foi embora. Porta da gaiola aberta, como vez em quando ficava, inesperadamente ele decidiu voar para longe. Saí atrás dele pelas ruas. Despediu-se de mim com dois voos rasantes, em círculo, e rumou para uma frondosa mangueira da Quinta da Boa Vista. Nunca mais o vi.

Em sua despedida, como sempre fizera enquanto esteve comigo, Alfredo me ensinou. Mostrou-me que, às vezes, certas perdas trazem um ganho maior. A dor de minha nostalgia não é maior do que a alegria pela sua liberdade. Perder, por vezes, nos faz mais forte. Tonifica vínculos. Revigora laços.

Ultimamente Vasco, nós perdemos. Muito. Sofremos, choramos. Nos distanciamos de nós mesmos. Mas, aos poucos, passo a passo, estamos voltando para sobrevoar à altura de onde nunca deveríamos ter descido. Hoje é dia de mostrar que aprendemos. Que as lágrimas tiveram alguma utilidade. Que a trágica tempestade foi apenas prenúncio da merecida bonança.

Aprendam com o Alfredo. Reencontrem o jeito vascaíno de encarar uma decisão. Não como uma final. Mas como um recomeço. Como o início de uma nova, fausta e vitoriosa era.

Vamos Vasco!

Seremos campeões.

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Um pensamento sobre “Preleção

  1. Belíssimo texto.
    Hoje premiado pelo título, que não pode nos toldar a visão.
    Ser campeão de qualquer coisa é muito bom, mas o título deste fraquíssimo torneio regional é muito pouco, para que se possa considerar que o VERDADEIRO RESPEITO esteja voltando.

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