Manchado e de molho

Era o ano de 1997. Estava no início e não sabíamos que ele terminaria tão festivo aos corações vascaínos. Uma noite vazia em São Januário e uma dificuldade, até então incomum, para superar o fraco Volta Redonda, que havia feito 1×0. A indefectível figura de Eurico Miranda, ainda vice-presidente, mostrava a sua forma de exigir o que ele costuma chamar de “respeito pelo Vasco” excedendo na pressão sobre a arbitragem. O resultado foi a expulsão de dois jogadores adversários sem motivos claros, e uma virada bizonha com gols aos inacreditáveis 49 e 51 minutos do segundo tempo. A torcida, ainda que pouca, não se conteve e gritamos, a plenos pulmões: “É marmelada!”

 

É essa, a meu ver, a essência daquele que assume, novamente, a presidência do Vasco. O respeito pela imposição, não pela conquista. A reverência pelo medo, não pela autoridade. O grito no lugar do diálogo. O antiquado ao invés do contemporâneo. A incoerência em vez da lógica. A sombra e não a luz.

Comove-me sinceramente ver vascaínos acreditarem em uma suposta nova postura de Eurico. Efeito de sua campanha que tentou passar a imagem de um sorridente e familiar senhor, que abandona a tranquilidade de sua casa com os netos para dedicar-se, por amor, à tarefa de resgatar o escudo que ama. É a vontade e o desejo de crer que voltaremos a ser o que já fomos, de recuperar uma grandeza que jamais pode ser reputada exclusivamente a Eurico e seu charuto teatral.

Basta, contudo, aguçar o olhar crítico, no mínimo possível, para estar certo de que se a forma mudou, o espírito continua o mesmo. O deboche aos adversários, as grosserias habituais, os amigos de volta, o convite a nomes ultrapassados, a expulsão de torcidas organizadas de opinião contrária. Está tudo lá, para quem quiser ver. Ele voltou. E com ele, todo aquele sofrimento a que nos acostumamos de 2001 até hoje. O foco exclusivo sobre o Flamengo. A vitória a qualquer custo. Dignidade e transparência em segundo plano. Obscurantismo nas contas. Voltamos aos velhos tempos. E pela porta dos fundos.

Como a torcida daquela longínqua noite de 1997, hoje sinto-me minoria. O sentimento que não para pede-me um tempo. Se há algo que o Vasco me ensinou é a importância de respeitar os diferentes, de acatar as regras, de superar as injustiças pelo caminho da legitimidade. O oposto do que o “novo” presidente, a meu ver, representa. E isso, desculpem, me afasta do Vasco. Não torço contra, posto que é impossível, mas temo bastante que pontuais sucessos de Eurico sirvam para chancelar esse modelo nefasto de exercer o poder como o único possível em meu clube de coração. Aquele que escolhi e que me orgulho justamente pela sua capacidade de ser plural, de confrontar o impossível, de enfrentamento às arbitrariedades.

O resultado das eleições desta terça deram um tom de vergonha à minha vascainidade. Um certo constrangimento em me revelar vascaíno e ver a nau navegar na contramão da correnteza. Por acaso, hoje, quando fui colocar uma camisa do clube, percebi que ela estava manchada. Uma oportuna metáfora a me lembrar que, enquanto queimar o charuto na sala da presidência, muita coisa precisará ficar de molho. Na esperança de que até 2017 seja possível extirpar toda essa sujeira.

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5 pensamentos sobre “Manchado e de molho

  1. Podiam escolher uma lavanderia que poderia usar alvejante , tinha uma que iria usar sabão em pó ruim também , mas escolheram uma que usa sabão de sebo .A mancha não vai sair , mas é torcer pra que não piore a situação até que uma outra possa assumir .

  2. Se a simples volta de Eurico Miranda deu um tom de vergonha à sua vascainidade, posso imaginar como você se sentiu com os 2 rebaixamentos proporcionados pelo ex-ídolo. Ou estou equivocado? O curioso é que justamente agora você vai se afastar da instituição. Quer dizer então que 6 anos de hecatombe nao foram suficientes para tal, mas a volta do Eurico foi? Mais um caso em que o ódio pelo nefasto charuteiro supera o amor ao clube. Lamentável.

    • Não sei onde vc leu no texto dele que ele vai se afastar do Vasco… posso estar enganado, mas acho que não foi o que ele quis dizer.

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