Enquanto houver um coração infantil…

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Campeonato carioca de 87. Lembro até hoje. Eu tinha seis anos de idade e me peguei pulando pela sala de casa abraçado com o meu pai comemorando o gol do Tita que dava o título do clube em cima do Flamengo. Eu era uma criança, não conhecia nada de futebol. Poderia ter me tornado torcedor de qualquer clube, mas aquele gol, aquele êxtase com o meu pai forjou o amor pelo Vasco. Naquele momento a cruz de malta foi marcada, como ferro em brasa no meu peito e nada mais me afastaria do clube.

Não conhecia a história do Vasco. Não tinha a menor ideia de que o Vasco tinha lutado contra o racismo, que o Vasco tinha sido o primeiro time de futebol brasileiro (contando a seleção) a conquistar um título fora do país. Não passava pela minha cabeça a belíssima história da construção de São Januário. O amor pelo Vasco era um amor puro, ingênuo, brotado a partir de uma explosão de alegria com o meu pai. Naquele momento, ainda que o Vasco não tivesse história alguma, eu continuaria sendo vascaíno. Os laços se tornaram grandes demais para serem rompidos, pelo motivo que fosse.

A história do Vasco veio depois. O amor já existia e a história veio me encher de orgulho. Eu tinha, mesmo que sem querer, escolhido o lado certo. Aquele amor inexplicável passou a ter explicação. Amar o Vasco deixava de ser apenas um apego juvenil, mas passava a ter uma justificativa de consciência. Eu torcia para o clube que defendeu o que acredito, que lutava por justiça, por correção. Naquele momento todas as peças se encaixavam e eu passava a entender o que não entendia antes. O amor tinha enfim um motivo justo.

Mas não parou por aí, minha infância foi repleta. O Vasco era motivo de orgulho. Quem não era vascaíno sofria na minha mão. O Vasco era campeão de tudo. Desde o bi campeonato de 87 e 88, passando pelo brasileiro de 89 e o tri campeonato de 92, 93 e 94. Eu converti diversos amigos meus em vascaínos. A luta contra o racismo já era um argumento. Ela servia para colocar uma pulga atrás da orelha das outras crianças. “Olha, o meu clube lutou contra o racismo. Nós construímos o maior estádio da America Latina com recursos próprios. Qual a história do seu?” E, sem argumento, os adversários se calavam.

A luta pelas causas nobres servia para dar orgulho ao meu discurso, mas o que o referendava mesmo eram os títulos. A explosão de alegria, a bola na rede. A pulga atrás da orelha se tornava certeza e os amiguinhos passavam a torcer pelo Vasco. Ser vascaíno era a moda.

Eu jogava de zagueiro nas peladas do colégio. Nunca fui muito habilidoso, mas tinha uma boa noção de marcação. E os títulos traziam os sonhos. Quem não quis ser jogador de futebol quando criança? Eu era o Alexandre Torres. Me via em São Januário, com a torcida toda comemorando e gritando meu nome enquanto eu beijava a cruz de malta.

O time da minha pelada infantil era Vasco. Um era o Valdir, o outro era o Denner, tinha também o Germano, o Bebeto, o Sorato, o Willian. Todos queriam ser Vasco e quem não era, invejava quem era.

Veio a adolescência e as coisas só se ampliaram. Vasco ganhou mais brasileiros, carioca, libertadores. Cada vez mais crianças queriam torcer pelo clube. O Vasco era um sonho infinito, o gol do Tita de 87 era permanente. A cruz de malta era motivo perene de orgulho e êxtase. Para mim o Vasco era imortal.

Só que o sonho acabou. Do orgulho veio a decepção, a tristeza, a resignação.

Vasco deixou de ser o grande clube da minha infância e se tornou uma cópia mal acabada de um time de segunda. Comecei a acompanhar a política vascaína e descobri coisas que me trouxeram vergonha. Na minha fábula infantil, o Vasco era o clube da virtude, da correção, da justiça. A canalhice? Essa ficava para o rival. “No Vasco temos honra”, eu repetia com os olhos brilhando.

O Vasco, porém, se mostrou diferente. Quando o Vasco ganhava tudo eu não precisava sair da arquibancada, eu não precisava conhecer a realidade. O Vasco ganhava tudo porque essa era a essência do Vasco, ora. Não precisa de outra explicação além dessa.

Mas o Vasco parou de ganhar. E o Vasco se tornou envolvido em uma CPI. E o Vasco me obrigou a descer da arquibancada.

O que estava acontecendo com o clube que eu amava? Por que a alegria tinha acabado? Eu precisava saber.

De início a explicação era simples: “Culpa do Eurico!”.

O Eurico, perdido no meio de sua arrogância e autoritarismo, tinha transformado o Vasco em um pastiche infame. Mas isso era temporário. Bastava tirar o Eurico e tudo voltaria ao normal.

Tiramos o Eurico e…nada. O Vasco seguia igual. Não havia dinheiro antes, continuou sem ter dinheiro depois. Não havia times fortes antes, continuamos com times fracos depois. Havia práticas fora de ética como o nepotismo antes, continuamos tendo depois. O Eurico tinha saído e qual era minha desculpa então? Por que o Vasco não voltava ao seu destino natural de glórias?

Nada mais fazia sentido. E o Vasco caía. Caía para a série B, caía em número de torcedores, caía em arrecadação. Nesse intermédio, até meu primeiro herói de criança, o Tita, se tornou um vilão.

Nada mais restava e nem o meu pai tinha para abraçar, uma vez que ele faleceu ano passado, sem ter visto (felizmente) o Vasco rebaixado pela segunda vez.

A pergunta que fica é: qual é a verdade? Qual é o verdadeiro Vasco?

O meu Vasco da infância tinha morrido. Não o Vasco real, que não morrerá nunca, mas o meu Vasco, o Vasco dos meus sonhos de moleque, o Vasco que estava acima do bem e do mal, que era símbolo de todos os meus ideais de vida.

Fico pensando nas crianças de hoje, o que as leva a torcer pelo Vasco? O Vasco foi o Papai Noel da minha infância. Acreditar nele foi o meu delírio, sair do delírio a minha decepção.

Valeu a pena tudo? Valeu sim. O Vasco foi meu sonho de criança. Minha memória abraçado ao meu pai será eterna. Mas e as novas memórias? O que se tornará o gol do Tita para a nova geração de vascaínos? Como forjar a cruz de malta no peito delas se o Vasco não oferece mais nada que as faça se orgulhar do clube?

Hoje o Vasco não tem time, não tem títulos. Não há histórias, laços a serem construídos. Não há pequenos vascaínos a baterem no peito comemorando os feitos cruzmaltinos. Não há pequenas crianças emulando jogadores do clube nos campos de pelada.

O Vasco não gera orgulho, não gera sonhos e dessa forma não cativa os pequenos coraçõezinhos, que precisam ter esperança.E, sem esperança os jovens vascaínos vão deixando de torcer pelo clube.

Nessa semana das crianças, a única coisa que queria era voltar a sonhar.

Nessa semana das crianças, eu só queria poder voltar a viver no tempo em que o meu Vasco era imortal.

 

Dedico essa coluna a todos aqueles que acreditam no verdadeiro Vasco, especialmente para a grande vascaína Ângela Diniz, fundadora do projeto Enquanto houver um coração infantil (https://www.facebook.com/enquantohouverumcoracaoinfantil?fref=ts).

Vocês me fazem continuar acreditando!

Por um Vasco sempre Gigante!

Twitter: https://twitter.com/hfloret

E-mail: hfloret@gmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/helderfloretvasco

 

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4 pensamentos sobre “Enquanto houver um coração infantil…

  1. Caro Helder Floret

    Escrevo estas poucas linhas para agradecer a parte que me toca em seu longo texto, uma vez que devo estar incluído no grupo dos que continuam acreditando no verdadeiro Vasco, mesmo também sendo idealizador junto com minha esposa Angela Diniz do Projeto Enquanto Houver um Coração Infantil….
    Na condição de idealizador acho que posso melhorar suas anotações, dizendo que ADULTOS também possuem “corações infantis” e são eles que assim como eu continuam a acreditar em dias melhores para nosso clube (apesar de não possuírem mais a pureza das crianças) independente de quanto tempo levem para chegar ou de quem seja o “mensageiro”.

    Saudações vascaínas.

    Ass. José Alves Peixoto Junior (Possuidor de um coração infantil dentro do peito que me serviu de fonte de inspiração para desse projeto)

  2. Não sei se é pra assinar embaixo, mas… ONDE EU ASSINO?
    Sensacional o texto. E corrobora minha tese de que tá difícil argumentar pra fazer a criançada torcer pro nosso Vasco. Passei um pouco isso com minha filha, mas acho que estou cumprindo a missão a contento…

    Viva o Vasco da Gama.

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