O encontro dos Vascos

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Às vezes imagino como seria um encontro entre os dois Vascos, o Vasco do século XX, altaneiro e conhecedor de sua força e o Vasco do século XXI, um Vasco fraco, incapaz de honrar a história que tanto nos orgulha.

O Vasco do século XX começaria:

“Eu sou um gigante, eu construí essa paixão. Quando comecei, ainda no finalzinho do século XIX, o clube não existia. Éramos apenas um pequeno grupo de pessoas apaixonadas pelo remo e que procurava uma nova casa”.

O Vasco atual diria então:

“Eu cheguei apoiado nos seus ombros. Já comecei grande, do tamanho que você me entregou. Iniciei minha jornada campeão brasileiro e vice-campeão mundial. Assim eu nasci”

Responderia o Vasco do século passado:

“Você começou gigante, mas sua alma é pequena. Eu lutei contra tudo, lutei pelo direito dos negros jogarem futebol. Tentaram acabar comigo, mas meus valores foram mais fortes. Eu venci e eles tiveram que me aceitar”.

O outro falaria:

“Você tem razão. Eu não luto pelo que acredito. Você era pequeno em força, mas forte de alma. Você mandava pouco, mas sonhou muito, e eu, que sou tão forte, não brigo pelos meus ideais. Você era fraco e venceu os fortes, se tornando maior do que eles. Eu, que sou forte, deixo com que os fracos me vençam e com isso diminuo o meu tamanho”.

O Vasco gigante diz então:

“Eu construí São Januário, o maior estádio da América Latina, palco de grades eventos nacionais, de discursos e jogos históricos. Eu ganhei dois sulamericanos e quatro brasileiros. Meu título em 1948 foi o primeiro título internacional conquistado pelo nosso futebol. Fomos pioneiros, mostramos força fora do Brasil antes até de nossa seleção”.

Responde o Vasco atual:

“Eu sequer consigo que o Rugby olímpico seja aqui. Apesar de todos os governantes se dizerem vascaínos, não trago para cá a necessária reforma no entorno do nosso estádio. Só me classifiquei uma vez para a libertadores e nunca conquistei título brasileiro. Enquanto você cruzava as fronteiras e mostrava nossa força mundo afora, eu não consigo mostrá-la sequer dentro do nosso próprio país”

O gigante então falaria:

“Fui campeão pelo mundo, conquistei pelo Brasil e dominei o estado. Ganhei vinte e um títulos estaduais. Quando você nasceu, eu tinha a melhor média de conquistas desse campeonato, uma vez que comecei a disputá-lo muito depois dos outros”.

E o pequeno:

“Já eu só ganhei o estadual uma vez e isso já faz dez anos. Hoje, até o Botafogo ameaça alcançar meu número de títulos. E o remo? Eu quase abandonei o esporte que fundou o nosso clube”.

Prossegue o Vasco do século passado:

“Esse é um orgulho meu. Entreguei como o maior campeão do estado, sendo o único clube a vencer o estadual invicto de terra e mar. Meu domínio era total. Onde estava o nome Vasco, estava a força que carrega a nossa cruz e as nossas glórias. Ali estava a marca do campeão, seja nos campos, quadras ou piscinas”

Diz então o Vasco de hoje:

“Já eu me contento apenas com o futebol. Não me interessa ver nossa bandeira tremulando em outros locais. Futebol é onde está o dinheiro e, nesse tempo de modernidade, é por dinheiro que eu jogo. Outros esportes são deficitários. Não tenho criatividade para criar meios de torná-los sustentáveis e, sinceramente, nem me importo com isso. Meu foco é apenas dentro de campo e, apesar disso, mesmo lá coleciono fracassos sucessivos”.

O gigante eleva o tom e diz:

“Você precisa se impor. Não te convidam para reuniões importantes, te excluem do comando do futebol. Quando eu nasci, eu mudei o comando. Se tentaram me excluir, eu os excluí primeiro. Enquanto os outros alijam você do futebol, eu mudei o futebol. Tentaram me banir criando regras mesquinhas, mas eu joguei na cara deles a suas próprias mesquinhez”.

E o pequeno:

“Mas o que eu faço? No meu começo eu chutava portas e socava mesas como uma criança que era. De pirraça, me colocaram de castigo e eu tive que mudar. Socava as portas e elas voltavam na minha cara, agora eu bato nelas e ninguém abre”.

O Gigante diria:

“Você não deve socar as portas com as suas mãos, mas com os seus princípios. Se você não tem argumentos para jogá-los na mesa, seus socos na porta cairão no ridículo. Eu soquei a porta e fiz com que me aceitassem porque tinha conhecimento da força da causa que estava defendendo. Você não sabe o que defende, não acredita nos seus ideais. Quando socava a porta antes, não socava por uma ideia, mas por truculência. Quando bate educadamente agora, não o faz por gentileza, mas sim por fraqueza. Encontre uma ideia e a defenda. Procure a razão e o caráter que te passei e então você não precisará mais passar pelas portas dos outros, pois terá a sua própria. Tenha o que dizer, e as pessoas te ouvirão. Seja relevante!”.

E o pequeno, cabisbaixo, falaria:

“Mas o que eu faço? Eu sou fraco, eu sou covarde. Eu não conheço o meu tamanho e a minha força. O que resta para mim? Como vou ser um gigante como você?”

E o gigante, então, encerra a conversa:

“Eu deixei para você o meu legado, a minha honra, os meus princípios. Eu batizei você na água da luta contra o preconceito. No seu sangue corre a força dos negros e a garra dos colonos portugueses, que vieram ao Brasil conquistar um novo mundo. Seu nome é homenagem ao homem que não temeu o desconhecido e descobriu o caminho marítimo para as Indias. Junto com você, eu deixei uma torcida gigante e apaixonada, que está sempre disposta a te levar no colo quando você precisar. Resgate o meu legado, acredite nos princípios que eu te passei, caminhe junto com a sua torcida e dê a ela o trajeto de vitórias a qual ela foi destinada. Levante a cabeça e ande. Você é um gigante pela própria natureza. Nada em nossa história veio de mão beijada e o caminho de conquistas está bem diante de ti esperando que você acorde do sono profundo. Hora de se erguer e ir em direção a ele!”.

 

Coluna publicada originalmente no site Ao Vasco , Tudo! em setembro de 2013

Por um Vasco sempre Gigante!

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E-mail: hfloret@gmail.com

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2 pensamentos sobre “O encontro dos Vascos

  1. Prezado Helder,
    Eu já tinha lido essa coluna no “Ao Vasco, Tudo!” e acho simplesmente FANTÁSTICA!!…consegui mostrá-la para um grande número de vascaínos na época, familiares e amigos, que tb enalteceram a coluna…ela deveria ser lida por TODOS os verdadeiros torcedores vascaínos e TODOS os jogadores de TODAS as modalidades esportivas do clube…parabéns pela perspicácia Helder, parabéns mesmo!!

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