Política para quem precisa de política

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Dizem que ela existe para fazer ganhar

Dizem que ela existe para fazer vencer

Eu sei que ela pode te apequenar

Eu sei que ela pode te enfraquecer

Segundo a Wikipédia, o termo política vem das cidades-estados gregas, chamadas polis. Desse nome surgiram a palavra politiké, que seria a grande política em geral, e a palavra politikós, que seria a política exercida pelos cidadãos.

Quem pode ser contra a política? Ser contra a política é se alienar, é viver em uma bolha. Fazemos política o tempo todo. Somos políticos quando nos relacionamos, quando vivemos dentro de regras pré-estabelecidas e quando questionamos essas regras. A questão é que há maneiras de fazer política para o bem e para o mal. Para beneficiar a um coletivo ou para obter benefício individual, e aí que a coisa pega.

O Vasco sofre nos últimos anos o efeito dessa segunda política. A política no clube é baixa, rasteira ao máximo.  Grupos buscam o poder a todo custo, muitas vezes não para servir ao clube, mas para se servir dele. E para isso rasgam qualquer manual de ética e bons costumes. A política mais maquiavélica é a que prevalece. Os fins justificam os meios sempre.

O Vasco é um clube de série A com uma política de série C. Na média, estamos na série B, coisa que se reflete em campo, apesar da força da camisa. Quem derrubou o Vasco foram os políticos que frequentam o clube. Essa mesma classe o destrói diariamente.

O Vasco é um clube endividado e cujos cargos eletivos não oferecem remuneração segundo o estatuto. O leitor pode então perguntar, por que tantos grupos se esforçam para assumir o poder? Qual o ganho pessoal alguém tem assumindo um cargo não remunerado de uma empresa cuja contabilidade é falida?

A resposta é simples: fama, ego, vaidade. Dirigir o Vasco dá um poder que outro cargo não dá. Significa aparecer diariamente nos jornais, dar entrevistas, ser convidado para convenções importantes, frequentar os bastidores ricos do futebol, ganhar uma horda de baba ovos disposta a agradar o chefe por qualquer motivo. Isso sem falar nas possibilidades de corrupção e trocas de favores para quem é desonesto. Mas mesmo para quem não quer roubar, ser presidente de um clube desse tamanho confere uma publicidade pessoal muito grande. Significa ser importante.

Amar o Vasco e querer ajudar o clube é uma parte nessa história que já virou secundária há muito tempo. Frequentar a política do Vasco é um caso estomacal. É preciso ter organismo forte para suportar a baixaria do ambiente interno no clube. Quem vive em função do clube (geralmente pessoas menos  qualificadas), acaba, por não ter outra opção, sobrevivendo e reproduzindo as práticas desse ambiente. Quem tem outras coisas a se ocupar na vida (geralmente as pessoas mais qualificadas), acaba desistindo e voltando para a arquibancada.

Além de todo o problema de ego, a política vascaína apresenta uma união de duas características explosivas se combinadas: o culto ao ódio e a prática da violência.

O culto ao ódio se manifesta nas ideias. No clube todos são donos da razão, todos apontam os dedos elegendo os culpados.

Se você é do meu grupo, você conhece o verdadeiro Vasco e está do lado da verdade. Se você não é, será imputada a você a culpa de todos os problemas do clube e eu devo te odiar por isso.

Essa forma de fazer política é repugnante, típica de ambientes ditatoriais e encarcera o debate. Não há troca de ideias se você despreza completamente o ponto de vista alheio. Se eu me acho o dono da razão não tenho porque querer discutir com ninguém, eu me basto e pronto.

Se não há debate as ideias empobrecem. Se não há troca, não há seleção. Há um modelo pronto a ser colocado em prática. Se der certo os méritos são únicos de quem realizou. Se der errado, os dedos serão apontados para o culpado da vez. Não há uma política para o clube, há um culto a pessoas. Há uma valorização de argumentos fixos, congelados pela doutrina que cada um se auto- impõe. É disso que vive ou morre o Vasco.

Outra questão perigosa é o envolvimento de torcidas organizadas na política clubística. Não, não sou preconceituoso. Acho que todo torcedor tem o direito de, ele pessoalmente, seja de qualquer classe social, participar da vida política vascaína. Não acho que seja preciso discurso engomado, carreira profissional bem sucedida ou ser descendente de português para ocupar esse espaço. Pelo contrário, quanto mais gente participando, mais gente vigiando. É democrático, é saudável, é bom para o clube.

O problema está em envolver a torcida institucionalmente nesse métier. O torcedor em si pode fazer o que quiser, a torcida não. A torcida está ali para apoiar o clube e não usar de suas estruturas para ficar a serviço de um grupo, qualquer que ele seja.

Se o interesse da instituição é eleitoral, deve deixar de ser torcida organizada e se tornar grupo político e enfrentar os ônus e bônus disso. A torcida organizada só pode se prestar ao debate político como torcedora, como o próprio nome diz. Apoiando ou criticando ideias e não pessoas ou grupos.

Cobrar sim, mas cobrar pelo bem do clube e não pelo bem da torcida em si.

O problema desse envolvimento é que muitos torcedores vivem em função da torcida organizada, sobrevivem por essa estrutura. E quando a torcida te sustenta, ela ganha uma importância para você maior do que deveria ter. Torcer deixa de ser diversão e vira profissão. E aí, manejar o interesse do grupo se torna questão de sobrevivência.

Nessa que entram as trocas de favores, os ganhos de ingressos, as ajudas para churrasco, o transporte grátis para os jogos etc.

Tá ok se o Vasco perde, desde que os privilégios da torcida sejam mantidos.

Quanto maior minha torcida for, mais ganhos ela pode obter do clube e, por outro lado, quem oferecer mais ganhos pode usufruir da máquina organizacional montada usando os nomes, símbolos e insígnias do Vasco.

Rola uma mistura pecaminosa entre o que é amor difuso e sem interesse, com o que é interesse objetivo concreto. E nessa disputa se a farinha é pouca, o meu pirão primeiro.

Fora que algumas dessas torcidas possuem uma organização violenta no seu interior que acaba sendo transferida para o debate político. E aí a violência do ódio sai das palavras e vem para a prática. É começam às ameaças a sócios, briga em sedes do clube, pancadaria.

Transfere-se perigosamente algo que era restrito à arquibancada e contra as torcidas rivais, para a social do clube e entre vascaínos.

A mistura do culto ao ódio com o envolvimento de facções violentas é explosiva, pois junta quem tem a capacidade de planejar e não tem coragem de pôr em prática, com quem é incapaz, mas tem coragem de sobra. Ódio de pensamento com prática violenta juntos e estão postos todos os ingredientes para uma tragédia.

Enquanto os senhores da razão, da violência, do ódio, do mensalão, da falta de transparência, do ego, do eu acima do clube estiverem na frente do nosso debate político, estaremos vendo a destruição dessa instituição centenária.

O Vasco se tornou grande por um grande gesto que foi a luta contra o racismo no começo do século e vem se apequenando por causa de gestos pequenos.

Pessoas grandes constroem grandes coisas. Pessoas pequenas destroem os lugares por onde passam.

Eu acredito na força do Vasco e sei que o clube é maior do que tudo o que aí está.

Mas para se recuperar precisa primeiro se livrar de todos esses políticos que apequenam e destroem o clube a cada dia.

No começo do século passado lutamos contra o mal que estava lá fora e vencemos

Agora a hora é de vencer o mal que está aqui dentro.

Por um Vasco sempre Gigante!

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E-mail: hfloret@gmail.com

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8 pensamentos sobre “Política para quem precisa de política

  1. Meu caro Helder: colocações absolutamente cirúrgicas.Todos os pontos atacados,com precisão. E se tenho alguma coisa a lamentar,foi não ter sido o autor da OBRA.Parabéns e um forte abraço do MPiragibe,apenas um modesto associado Vascaino e ex-PHD.

  2. Caro Helder… que texto foda!!! Parabéns!!
    Estarei torcendo pra dar tudo certo… daqui de Salvador, mas torcendo! Só existe uma chapa nesse processo que me faz ter esperanças de dias melhores… TODAS as outras, se bater no liquidificador, além de quebrar o liquidificador, não dá nada!!
    Saudações Cruzmaltinas!

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